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sexta-feira, abril 02, 2010

Tema para a meditação de hoje





Os jornais estão cheios com a foto de uma jovem de dezassete anos que já era viúva quando faleceu, juntamente com as suas vítimas, no metro de Moscovo.
Tinham-lhe morto o marido, provavelmente com todas as razões do mundo, carimbo e benção oficial e não serei eu, ignorante como sou, quem atirará pedras ao executor.
Mas não posso deixar de pensar em Romeu e Julieta, no desesperado e violento amor dos treze anos, dos catorze, quinze, dos teenagers. Quem transformou Dzhennet Abdurakhamanova numa viúva negra, estava, receio eu, como sempre, a criar alguém capaz de quase tudo. Por amor, por ódio, por desespero.
Provavelmente ninguém o confessará:
Fosse Dzhennet feia, velha e com bigode, bah! Mais um terrorista, daqueles que se abatem sem dó nem piedade quando está na mira de uma pistola, de um helicanhão.
Mas ela era apenas uma menina, das que, no nosso país andam ainda no secundário; e era bonita. Faz-nos pensar na inocência, não faz?
Faz-nos pensar que Julieta, ao contrário do que é costume pensar-se, é uma ideia feita, não morreu de amor: morreu vítima de uma forma de bulliyng que aos jovens de Verona era permitida. Quem se não lembra, releia a cena do duelo entre Marcutio e Tybald e preste a atenção à insolência deste, à fanfarronice de todos, ao clima de violência instalado.
Mas a violência não se ficou pelas peças de Shakespere, não era só a de Verona.
Houve um brasileiro em Londres, lembram-se?
Foi abatido, assim, pás!
Azar! Era engano.
Houve protestos, claro, indemnizações e por aí fora. O atirador foi admoestado, certamente, são sempre.
Nós, neste cantinho da Europa, não podíamos ficar atrás. Também somos gente, não somos?
Há dias, um rapper que, se calhar, ia distraído a falar ao telemóvel, que talvez tivesse bebido um copo a mais, ou que, pura e simplesmente ia noutra, foi abatido pelas forças de segurança. Não ia, tanto quanto se soube, a fazer mal nenhum. Acontece que não parou quando lhe mandaram.
A autoridade perdoa tudo - sobretudo se houver uma pequena lembrança - menos a desobediência. É o que enfurece mais o bully: é que alguém lhe resista, que se esteja nas tintas para ele, que não lhe obedeça instantânea e submissamente. Multa. Bate. Dispara. O guarda, o que disparou - vai uma apostinha? - vai ser admoestado também.
É como as crianças que torturaram e afogaram uma pobre mulher doente, lá para as bandas do Porto. Foram admoestadas pelo sr. Dr. Juíz, se calhou, pelo sr. Padre Maia também, ia jurar, por toda a gente responsável.
E é como aquelas crianças que mandaram o Leandro Filipe para o hospital. E as que agora o empurraram para o Tua, mesmo se não foram elas, não, não! Ou prontos, foram, mas foi sem maldade, era só de brincadeira. Vão ser admoestados, podem ter a certeza!
E vão todos ter apoio psicológico porque estão muitíssimo transtornados.
As vítimas, essas morreram, como o jovem rapper, como o brasileiro de Londres, como a Gisberta.
Uma por outra recebeu, muitos anos depois, uma indemnizaçãozeca regateada que nem a símbolo chega. Foi o caso de uma rapariguita que só queria frequentar a universidade e se declarou anti-praxe, mas, hélas, foi torturada, violentada, humilhada.
Outros ainda, suicidaram-se.
É tão simples quanto isto: não quero este mundo, não quero esta gente, não quero! Vou-me embora!
A forma que escolhem para se despedirem é que faz a sua diferença.
Já aqui o disse: o Leandro Filipe era bom menino. Terá voltado a violência contra si próprio.
Dzhennet, de cultura muçulmana, escolheu ser bombista suicida.
Se fosse norte-americana, cristã de cultura, democrata e ocidental, teria escolhido entrincheirar-se numa torre da sua faculdade e disparar a esmo.
É uma vingança cega, injusta, mas é o único heroísmo julgado possível num mundo em que o poder se serve, ele próprio, dos bully, quer se chamem Bush, Blair, Aznar ou Barroso, para enforcar outros bully que se tornaram incómodos.
Um poder que precisa de guardas republicanos, de seguranças, de carcereiros para as abu garibes e as guantanamos que são a sua forma de domínio e, claro, não pode deixar de lhes tolerar os desmandos, os excessos, os erros.
O poder é assim mesmo: as forças armadas americanas, inglesas, russas, que sei eu, julgaram-se no direito de atacar, brutalizar, gritar, impôr.
As vítimas, às vezes, escolhem vingar-se.
Uma delas, por exemplo, chamava-se Dzhennet.
Tinha dezassete anos e fez mais vítimas que talvez tenham dezassete anos e que um dia farão - quem sabe? - mais vítimas...
Ninguém foi muito feliz e tiveram muitos filhos que foram devorados pela aviação inimiga.


segunda-feira, março 08, 2010

Na Ilha de Jackson, porque não?

















And if We see You standing alone by yourself,
if you're lucky we'll ignore you.
If you're not lucky, we might throw rocks.
Because we don't like people standing there
with the wrong patches on their jeans...


Ursula LeGuin,
A very long way from anywhere else



Tenho-me lembrado muito do Tom Sawyer.

Às vezes dão-me assim, como que umas lembranças parvas, a propósito de coisas tão diferentes.
Como se não tivesse a chovido quase permanentemente, como se os rios não levassem força de água, como se encontrar um abrigo minimamente seco, com este tempo não fosse impossível, como se acender uma fogueira com lenha húmida não o tivesse denunciado já.
Mas, lembram-se de quando o Tom fugiu de casa para ir ser pirata?
Também ele se sentiu um dia injustiçado pela tia Polly, que costumava bater-lhe com o dedal na cabeça - nós, os adultos, que é que julgávamos? também somos peritos no tal bullying.
De súcia com o igualmente infeliz Joe Harper, mais o desclassificado Huck Finn de contrapeso, Tom abraçava de uma vez todos os pecados e lá partia ele, rio abaixo, a ser pirata.
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Bem sei, nem o Mississipi é o Tua, nem o pobre Leandro Filipe tinha ali perto uma Ilha de Jackson.
E como saberia ele que ser pirata é um modo de vida galante, superior a ser professor da escola dominical, quiça até, logo abaixo de ser presidente dos Estados Unidos?
Dá para pensar: aos doze anos, que sabe uma criança, que lhe ensinámos nós que o tivesse ajudado naquelas horars de angústia?
A avó velhinha ter-lhe-á contado a história do Gato das Botas? Ou a do João-sem-Medo? As histórias que ajudam a ultrapassar medos, que ensinam a ser o mais pequeno, como o Pequeno Polegar e a casar com a filha do Rei como o Marquês de Carabás?
Alguém lhe deu livros para ler? E que imaginamos nós que ele, se aprendeu, aprendeu com essas histórias? Com a idade do Leandro Filipe, eu já tinha fugido de casa para a Ilha Kirrin com a Zé e o Tim, para a Ilha de Jackson com o Tom, com Jim Hawkins e com o Long John Silver no Hispaniola.
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A ele, talvez alguém lhe tenha ensinado a fazer um requerimento, a interpretar uma notícia de jornal, a decifrar os enigmas da vida do Luís Figo.
Mas onde, no seu curto currículo, aprendeu a superar as crises, a fugir para ser pirata? Ou teve só, como mãe substituta, a televisão, com o seu corropio de Narutos, Digimons, guerreiros Ninja e Sandokus?
O herói dos nossos dias começa por ser o guerreiro invencível, mas transforma-se muito facilmente num atirador suicida. A escola é, regra geral, o alvo preferido. É lá que a discriminação se decide, que a criança percebe a que estrato social está destinado, é lá que as injustiças do nascimento e da fortuna nos agridem pela primeira e mais violenta vez. O Leandro poderia ter arrombado o armário onde o pai tem a caçadeira, roubado um saco de cartuchos e vingar-se das violências sofridas; mas era bom menino, optou de maneira diferente, voltou contra si próprio a violência que sentia.
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Percebam: o que eu esperava sem esperar, era que o Leandro, entre o receoso e o triunfante, voltasse; que tivesse lido o Tom Sawyer e que, com o apoio secreto de um ou outro amigo que lhe restasse, se tivesse escondido numa ilha perto, de onde pudesse assistir de palanque à sua vingança.
A gigantesca farsa que teria criado, involuntariamente, talvez, seria o seu triunfo.
Estaria agora de volta para gozar os louros de ter posto um País a pensar.
Porque é que Deus, ou Nossa Senhora, ou São Josemaría Escrivá não fazem um milagre? Porque não o fazem surgir, um nadinha sujo, a precisar de uma sopa quente e de um banho, uma mãe a aconchegar-lhe a roupa na cama e com a certeza confusa de que é um herói?
Já sabemos que não há justiça neste baixo mundo.
Mas, no lá de cima, não haverá ninguém?

quinta-feira, março 04, 2010

Ir à escola mata!

Tinha doze anos, mais mês menos mês e foi vítima de um fenómeno que agora se descobriu. Até já tem nome em inglês, é uma coisa séria, subiu à categoria dos maremotos que são tsunamis e tremores de terra. Chama-se bullying.
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O meu dicionário começa por explicar que o «bully» é o «hired ruffian, blusterer, browbeater», ou seja: o rufião encartado, o vociferador, o ameaçador.
Também se aplica, em Eton, ao que parece, àquelas molhadas que se formam no rugby a que se chama também a mêlée e em que o desgraçado que sai lá de baixo, ou tem o caparro de um lutador de wrestling ou sai feito num oito.
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O bully, portanto, é um atormentador. Mais: regra geral não age sozinho. Exibe-se para o seu grupo e, em caso de resistência do atormentado, não hesita em socorrer-se da ajuda dos outros todos. A mêlée, nem que mais não seja pelo número, raramente perde.
Se a memória me não falha, está aqui tudo o que falta para fazer delinquentes juvenis.
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Claro, se assaltarem uma loja, se roubarem carros, chama-se a polícia, exigem-se medidas: atentou contra o património. É grave.
O cidadão comum indigna-se, exclama que «só neste país!», pergunta o que faz a polícia.
Os ministros anunciarão reforços às forças da ordem, o policiamento de proximidade, o bacalhau a pataco e que a semana vai ter nove dias.
Um ou outro desses jovens delinquentes será detido com grande estardalhaço e confiado mais ou menos em segredo á guarda dos mesmos tutores que não souberam socializá-lo.
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Se o mesmo jovem se dedicar a tiranizar os mais novos, os mais pequenos, se lhes roubar o lanche, as canetas, os trocos, se com grande valentia distribuir porrada, se rasgar os livros de estudo, se insultar e bater, tudo bem, ninguém sabe, toda a gente estava a olhar para outro lado.
Os mais pequenos sofrem, mas não dizem nada, porque é o medo que guarda a vinha. Os pais não sabem porque os filhos não falam. Os professores não têm meios e os conselhos directivos garantem que na escola não foi.
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Mas foi.
Não interessa se foi para lá do virar das esquinas, longe da vista e longe do coração, que a agressão se concretizou: foi na escola que se estabeleceram os domínios, se designaram as vítimas, se iniciaram as perseguições: primeiro com os risinhos, o desdém, logo o insulto, o empurrão, o pequeno roubo "a brincar", o estojo dos lápis atirado para longe, a mochila escondida.
Se as coisas forem mais longe, mais longe serão: fora da escola, longe das testemunhas.
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Mas, como é um fenómeno, pronto, então está tudo bem. É como os ritos de iniciação, um homem não é homem se não partir sete vezes a cabeça, se não pegar um garraio de caras, se não for à tropa.
Os jornais escrevem em grandes títulos que um "estudo académico conclui que 13,5% dos estudantes do secundário são alvo de agressões sistemáticas". 13,5 é um número significativo: é como dizer-se que uma fatia importante dos adolescentes perdem a virgindade antes dos quinze anos, ou que a incidência das borbulhas faz parte do crescimento. O Dito bullying também.
Até há estudos académicos. A honra está salva.
Os reitores das universidades, quando recebem estes jovens delinquentes, já podem aceitar a existência de rituais de iniciação, de praxes violentas, do que for.
Se alguém faz perguntas, todos negam:
Que está garantido o direito a declarar-se contra a praxe, dizem.
Que sempre foi assim e que não tem havido queixas.
Não, não tem havido queixas.
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Uma vez por outra morre um Leandro Filipe.
- Não pode ser! - gritam-nos logo. - As nossas instituições são perfeitas. Foi um azar! A culpa foi dele de certeza.
Talvez, talvez tenha sido. E minha, também.