sábado, julho 16, 2011

Rui Tavares

Não é segredo nenhum que tenho sido eleitor do Bloco de Esquerda desde que ele apareceu.
Anos atrás já tinha contribuído para eleger um deputado, o primeiro que entrou em São Bento com o meu voto no bolso: chamava-se Acácio Barreiros e representava a União Democrática Popular.
A UDP, para os que não viveram estes eventos da pequena história (e, portanto, não conhecem as pequeninas histórias do que, na altura, eram os eventos) agregava um certo número de organizações políticas que se tinham tornado grupusculares.
Eram comunistas, claro, mas reivindicavam diferenças insanáveis com o PC de Álvaro Cunhal: acrescentavam às siglas dos seus partidos as letras M-L, regra geral entre parêntesis. Tipo, imaginem os mais jovens que não tiveram a dita de viver estas glórias, PPD-PSD (ML) ou mesmo o CDS-PP (M-L).
M-L queria dizer, naquelas cartilhas, «marxista-leninista», mesmo se nunca nos explicavam lá muito bem o que isto queria dizer. Ao que creio, rejeitavam as transformações por que passava a sociedade soviética na era que se seguiu à morte do Estaline. As suas bandeiras ostentavam orgulhosamente as efígies de Marx, Lenine, Estaline e Mao-Tsé-Tung e tomavam como modelo, já não a revolução russa, mas a chinesa.
Depois, as coisas vieram mudando, paulatinamente umas vezes, com estrondo outras.
Não sei se os tempos evoluiram, se involuiram, se a humanidade deu um passo em frente, se dois atrás.
O grande timoneiro da barca chinesa que já envelhecia muito retirado, morreu.
Em seu nome tinham-se feito coisas muito questináveis, e depois, contra ele fizeram-se outras.
Sem estes últimos grandes ideólogos, as nossas esquerdas vacilaram: caía o muro de Berlim, os Estados Unidos nomeavam um tal Boris Yeltsin para o Kremlin e Fukuyama achou que agora sim, o fim da História (coisa que se discutia desde o Hegel e do Marx) estava à vista.
Não houve cão nem gato que não declarasse mortas as ideologias.
Não sei se já por efeitos dessas orfandades, a UDP em que eu tinha votado fez um acordo com o PSR e com o Política XXI e formaram o Bloco de Esquerda.
Senti-me mais contente: esqueciam-se diferenças um tanto mesquinhas, eu sou marxista-leninista e grito vivas ao Estaline e tu levaste com uma picareta no toutiço porque és trotskista e por aí adiante...
Eu voltava a ter deputados.
Confesso: não esperava que eles representassem os meus ideais, porque tenho poucos e muitos simples e eles não têm de ser nenhuns Sãos Franciscos. Mas defendiam algumas coisas com que eu concordava, outras que não tanto, mas enfim, no mínimo mereciam que eu lhes confiasse o meu voto de protesto. E logo em 1999, com o século prestes a acabar, eu e, creio, muitos outros como eu, lá elegemos, pela primeira vez, o Luís Fazenda e o Francisco Louçã.
O resto do percurso é conhecido.
Chegámos a juntarmo-nos muitos e a ter dezasseis deputados. Agora alguns de nós optaram de modo diferente, só elegemos oito.
Não estou desiludido com o Bloco.
Esperava dele coisas acertadas, claro, mas também uma asneira por outra, a franca burrice de vez em quando. Foi o que aconteceu, obviamente.
Se algum de vocês pertence a um partido que sempre fez as coisas certinhas, que nunca errou e que, em calhando, nem dúvidas tem, então que lhe atire a primeira pedra.
Eu que não pertenço (nem pertenci, diga-se) a partido nenhum recuso-me a atirar nem que seja a última.
Não esperava, que estas minhas opções me conferissem quaisquer direitos.
Mas ando francamente intrigado.
Regressámos ao tempo do Estalinismo e das purgas internas?
Eu tinha um deputado de estimação no Parlamento Europeu. Não me importava que ele fosse independente porque, para mim e de mim, todos o são.
Leio com atenção o que escreve no Público e no seu blog. Considero sugestivas as suas propostas e gostava de as poder discutir uma vez por outra. Era activo, dava-nos parte do que ia fazendo, das pequeninas alianças em que entrava e por aí fora.
- Cá está, dizia eu para mim mesmo. - Um deputado assim é que eu gosto.
Li, já lá vai um mês pelo menos, que se desligara do Bloco em que eu costumava votar. E esperava que ao menos um dos seu dirigentes viesse a lume explicar-me, a mim, eleitor, que diabo se tinha passado:
Foi apanhado a conspirar para a compra de mais submarinos, a receber chorudos envelopes por baixo da mesa e, envergonhado, pediu a demissão?
Alguma jovem, tipo coelhinha do Playboy, inspirada pelos casos Dassange e Strauss-Kahn, apresentou queixas contra ele no Tribunal Internacional dos Direitos do Homem (das meninas, neste caso)?
Ou, caso muito mais grave ainda, esqueceu-se de alguma das obrigatórias vénias aos sacrossantos dirigentes e fundadores do Bloco?

2 comentários:

Lelé Batita disse...

Olá amigo, como vais?
Já refeito das perdas no anterior PC?
Então parece que perdi um jantar de Blogues, foi do Kaos?
Olha que pena, não soube de nada, senão teria ido, claro!
Qual é o Blogue do Rui Tavares? Envias-me o link?
Abraços.

tacci disse...

Lelé:
Também não fui a nenhum jantar de blogues depois do da Pérola. O Fado Alexandrino, julgo eu, refere-se àqule em que nos conhecemos todos, ali ao lado do Hot.
O blog do Rui Tavares é o http://ruitavares.net/blog/.
Mas se fores ao google encontras muito mais coisas.
Quanto a estar refeito, sim, creio que sim, se não falarmos da preguiça...
Beijinhos.