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domingo, outubro 26, 2008

Um cadáver requintado

***
Mário-Henrique Leiria, Pas pour les parents, 1951, Inédito, Colecção Cruzeiro Seixas


Ver mais aqui.

sábado, outubro 25, 2008

Depoimentos escritos

Depoimentos Escritos, contos, poemas e cartas de amor,
Editorial Estampa, 1997
Sem data (provavelmente Out.-Nov. de 1961, de S. Domingos de Rana):
«Maruska bonita
Toma lá mais três "apontamentos". Creio que esta solidão me trouxe um apuramento de memória. As recordações começam a estar todas exactas e presentes. Vivo com fantasmas, não há dúvidas.
Tudo o que aí tens existiu.
Uma despedida amarga... Verão de 1960.
Dois momentos em Espanha... 1939. Dezasseis anos heróicos e estúpidos. O Henri do bigodão ainda deve existir e chama-se mesmo Henri. Estive com ele em Paris, em 1957 (que saudades do que eu, nessa altura, acreditava!). (...)
Querida menina do rostozinho eslavo, guarda isto contigo e um dia diz-me qualquer coisa. Espanha, três da tarde, cinco da tarde, de dias bem diferentes... Depois, Santa Apolónia... É para rir...
Vénia fantasmagórica do solene e irónico
...e sempre teu, claro
Mário-Henrique»
pag. 119
S. Paulo, 12/1/1963:
... «Tive aqui uma proposta divertida para resolver a minha situação de fora-da-lei. Um camarada uruguaio propôs-me o seguinte, depois de ter consultado gentes da terra dele: eu iria ao Uruguai e lá, em 15 dias, camaradas fixes arranjavam-me documentos de cidadão uruguaio. Ri-me francamente com a história. Achas-me com cara de "......... del Uruguay"? Se eu tivesse querido, já tinha tido duas oportunidades de mudar de nacionalidade: ou cidadão francês, ou soviético, que qualquer das duas seriam muito mais interessantes para mim do que ser um idiota uruguaio. Não, Isabelinha, nós nascemos naquela saudosa merda e a ela temos que pertencer até ao fim. Lá vivem os nossos operários, os nossos camponeses, por esses temos que lutar até que eles possam sorrir e ser homens livres e autênticos.»...
pag. 244
Carcavelos, 25/11/1973:
... «Quanto ao meu livro (*), já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de Dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do "Diário de Notícias"? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!»
pag. 303
(*) Trata-se dos Novos contos do gin

segunda-feira, outubro 20, 2008

O Mundo inquietante de um anarco-surrealista



1
Escrevia-se em transe, quase como que para lá da vontade, do dilema de Hamlet, das imposições de Lulio. Tudo e o seu contrário, a lógica do sonho, do inconsciente libertado pela fantasia que nada amarrava: o real é um "cadáver" requintado, "esquisito", ressuscitado em noites gloriosas, ali ao Rossio, no Café Gelo.

2
De largo iam os bem pensantes: havia um regime autoritário, é certo, uma polícia política, tinha de ser, uma Guarda que escoronhava a torto e a direito.
Aqui ao lado, porém, já tinha passado uma guerra civil e, por essa Europa, uma guerra mundial. Por cá, Graças a Deus, não se passava nada: a Pátria estava salva. Podia tolerar uns desmandos de meninos da boa sociedade, como o Cesariny. Vindo de Paris, tinha inventado grupos surrealistas - a que pertencem, por exemplo, o O'Neil, o Cruzeiro Seixas, o António Pedro e, claro, também o Mário-Henrique Leiria. Um pouco mais longe moravam os neo-realistas. Toleravam-se, nem sempre amigavelmente, mas concordando todos facilmente em que era preciso derrubar o Estado Novo. Só se discutiam os caminhos para lá chegar.
A luta pela consciência começa onde? E qual é o papel do Artista?
A subversão pela liberdade da imaginação, pela destruição dos sentidos aparentes, pela ironia - é o caminho que escolhem O'Neil, por exemplo, e também Mário-Henrique.

3

No ano exacto em que as colónias, perturbando gravemente a pátria beatitude, se insurgiam, o Mário-Henrique foi preso. Já tinha sido expulso, em tempos, da Faculdade de Belas Artes. Abandonou o Gêlo e foi por esse mundo fora: encontrou no Piauí, "seis mil quilómetros mais longe e vários anos distante, quando bebia uma cachaça", aquele isqueiro que lhe tinha dado a mulher. Concluiu que "realmente os mistérios não são uma coisa assim tão complicada".
Seguiram-se as Lutas Académicas, as manifestações do 1º de Maio, greves, emigração a salto, deserções.
Os répteis de serviço do salazarismo inventavam sonoridades: os surrealistas não tinham o exclusivo da escrita delirante. As nossas caravelas não se deixavam «arrastar pelos ventos da história» e, «orgulhosamente sós», «Portugal uno e indivisível» «só chorava os mortos», porque os «vivos, a soldo de Moscovo, os não mereciam ».
Alguns Casos de direito Galático foram sendo publicados no jornal República. Mário-Henrique Leiria estava de volta. E em Março de 1973 sai o volume dos Contos do gin-tonic. Meses depois, em Dezembro, os Novos contos do gin rematavam com uma "Contabilidade final":
"Parece mentira, mas ainda não recebi os rublos moscovitas. E esta, ein! Só tenho coisas que me ralem".
4
Os amigos que ainda têm os livros do Mário-Henrique Leiria têm outros amigos que vão e vêm, que levam livros emprestados, às vezes não os devolvem. Os editores não querem saber e não os reeditam.
A Imprensa Nacional tem mais que fazer.
Não há ninguém que faça a edição crítica das obras completas deste singularíssimo anarco-surrealista?
***
PS.
Talvez porque o surrealismo do Mário-Henrique Leiria tivesse bastante menos a ver com o Breton do que com o Robert Desnos, aqui fica
Le Pélican

Le Capitaine Jonathan,
Étant âgé de dix-huit ans
Capture un jour un pélican
Dans une île d'Extrême-orient.

Le pélican de Jonathan
Au matin, pond un œuf tout blanc
Et il en sort un pélican
Lui ressemblant étonnamment.

Et ce deuxième pélican
Pond, à son tour, un œuf tout blanc
D'où sort, inévitablement
Un autre, qui en fait autant.

Cela peut durer pendant très longtemps
Si l'on ne fait pas d'omelette avant.