quarta-feira, abril 15, 2009

Subsídios para o Livro de Aka (XV)


A Aia baixara o khimar, sorria,
o velho marchand dizia coisas redondas,
era excelente o gosto da «sua jovem amiga»,
dava palmadinhas na caixa poisada na mesa de apoio a seu lado,
a mão fina, manicurada,
os olhos a mostrarem Aka,
«a quem pedia que lhe perdoasse a insignificancia»,
«só justificada pelo o seu juvenil entusiasmo».
«Não, eu nunca perdoo», pensou Aka, «às vezes esqueço, é só isso»,
mas baixou os olhos como fora ensinada a fazer.
O velho, vagaroso, desembrulhou a figurinha da petitte danseuse reduzida a dois palmos.
- Vraiment superbe! - murmurou contemplativo
e a Aia repetiu:
- Oui. Superbe.
Aka levantou-se, fez uma vénia,
«vous m'excuserez», e saiu da sala.
- Não repare - pediu a Aia. - É a idade. É para esconder a comoção...
- Oh! É muito mais grave do que isso, minha querida amiga. Está na idade em que ainda é possivel recusar a banalidade. - acariciou o tule da estatueta com o dedo mindinho estendido e pareceu triste por momentos: - Receio que a vida a venha a desiludir muito.
Mas mesmo muito, mesmo muito...
-

8 comentários:

Anónimo disse...

caríssimo, o Livro de Aka há-de ter um comentário mais atento. De momento, tenho para mim que é o esquecimento que deve evitar-se, não o perdão. Para bem da consciência da nossa fragilidade devemos perdoar sempre, esquecer nunca. jad

tacci disse...

Bom, sempre podes perdoar tu à Aka.
Ela tem só catorze anos e, se Deus ajudar, umas coisas para aprender.
Abraço.

Anónimo disse...

Exactamente, aprender! sabes melhor do que eu quanto vale o que ensinamos, ou, como muitos preferem, quanto aprendemos (no que me diz respeito, já passei a fase em que o verbo ensinar ara sinónimo de formatação, castração e outros ãos de que nos vestimos aolongo de, pelo menos, três décadas).
Perdoar: como podemos não perdoar perante o reconhecimento do erro que nos cerca os passos?! Como esquecer os erros, os passos, as sombras, os fantasmas da memória do tempo que nos faz?

Mas, caríssimo Tacci (é o que és aqui, não é?), o livro de Aka, bem como os textos que já te li são, de facto, muito, muito bons. Não tem nada aver com o vinho com que acompanhávamos os célebres "souflés" que antecipavam os uivos à lua ao longo do paredão! Agora, se fosse vinho, seria preciso abrir antecipadamente a garrafa, apreciar a consistência da cor, a complexidade do aroma, antes de mastigar a exuberância do gosto apurado em vinte e muitos anos.
Contudo, cá nos achamos à volta da mesa das palavras, que é o melhor que inventámos.

Abraço.
jad

carla das estepes disse...

Se perdoarmos, esquecemos, não é? Se não esquecemos, não perdoamos. Criou-me uma incomodo terrivel

tacci disse...

Jad e Carla:
Vou confessar-vos uma coisa:
não sei bem o que é o perdão. Claro que, antes de mais, é a renúncia à vingança, à lei de Talião, ao olho por olho e por aí fora.
Porém, no inglês (e não há nada com trocar de língua para ver se os conceitos ainda se aguentam) a "forgivness" é, ao mesmo tempo, perdoar e deitar para trás das costas, ou seja, to forget, esquecer: «pá, esquece, pronto!» É um fingimento, a representação do «como se não tivesse acontecido».
Nas línguas latinas como a nossa, porém, o perdão (per+dom = através da doação) é uma concessão. Somos nós quem concede, supostamente a quem merece e de acordo com a nossa própria moral.
Não sei se o perdão não é demasiado arrogante.
Se repararmos, em «perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido», o que se estabelece é uma espécie de hierarquia: nós perdoamos para "baixo", os subordinados, aos que, de algum modo, nos são inferiores, nem que seja moralmente.
E pedimos o perdão para "cima", ao próprio Deus.
Está bem quando é o presidente dos Estados Unidos a "perdoar" a vida a um perú do Natal, aleatoriamente escolhido, tipo «quero-lá-saber-desde-que seja-um-perú». E o mesmo pode acontecer com um condenado à cadeira eléctrica cuja pena se transforma em prisão perpétua. Foi à sorte, calhou-lhe a ele.
Mas, quando é o nosso irmão/nosso próximo?
É a ele e só a ele, com a sua falta, que esse perdão se dirige, não é?
De certo modo aceitamo-lo a ele e perdoamo-nos a nós mesmos por essa fraqueza.
Aka é demasiado novinha para pensar isto tudo, mas quem sabe se, lá no fundo, não sente que «perdoar» é apenas mais uma forma de narcisismo?
(Desculpem: acho que me enredei nisto tudo. Prometo que vou pensar melhor. Só não prometo cumprir a promessa porque, provavelmente, vou esquecer-mer pelo caminho.)
Um abraço para ambos.

tacci disse...

Desculpem:
Faltou o ponto de interrogação da modéstia. Não sou um filólogo nem minimamente competente, como não sou um milhão - só? perguntareis admirados - de outras coisas. Por isso a etimologia de perdão devia vir asssim:
(per + dom ? = por doação?)
E o meu José Pedro Machado fica muito feliz por aventar a hipótese de um latino "perdonu-".

Anónimo disse...

É verdade que a distinção não é tão clara quanto, por exemplo, entre esquecer e recordar. Sabemos que recordamos e o que recordamos porque num qualquer momento anterior o havíamos conhecido, vivido, experenciado. Recordamos porque ainda não tinha sido absolutamente esquecido. Porque, todos o sabemos, há saberes, vivências, factos que se nos varreram completamente e aos quais não temos a mais pequena possibilidade de voluntariamente (i.e apenas por nós próprios) lhe acedermos. Mas há outros que, por razões que cada um sabe ou pensa que sabe, é importante não esquecer; se não for por outra razão que seja para não repetirmos o que nos desagradou, que nos fez mal ao corpo e à alma. Por isso, não devemos esquecer.
O perdão é de uma outra ordem. Tacci tem razão (como quase sempre) ao colocá-lo no domínio moral. É, de facto, aí que deve ser colocado. É como se nos disséssemos que sabemos o que aconteceu, as asneiras que os filhotes fizeram mas não lhes queremos mal por isso, que continuamos a amá-los, apesar de sabermos e nos lembrarmos das suas asneiras. É uma questão de amor, mas também de respeito, de liberdade, de solidariedade, de tolerância, que são, ameu ver, os esteios da nossa vida em comum. Penso, por isso, ser importante não alimentarmos a amnésia e não deixar morrer à fome o perdão.

Talvez Aka tenha razão quanto ao narcisismo. Pessoalmente acho que do mesmo modo que a humildade não sempre uma virtude também o narcisismo não é necessariamente um defeito.
jad

Anónimo disse...

Claro que aguardo a tua relexão prometida, Tacci!
jad