quinta-feira, outubro 22, 2009

Uma citação, quiçá incómoda, mas atempada...














"... for his work is marked by both idealism and humanity..."
Prémio Nobel da Literatura (que recusou) de 1925
-

"Por outras palavras: como não nos podemos livrar da Bíblia, ela se livrará de nós, a não ser que aprendamos a lê-la dentro do «espírito adequado»; e este parece ser o espírito de integridade intelectual que obriga os pensadores honestos a ler com toda a força da sua inteligência todas e cada uma das linhas que se arrogam autoridade divina, julgando-as exactamente como julgamos o Alcorão, os Upanichades, as Mil e Uma Noites, o artigo de fundo do Times de hoje, ou a caricatura do Punch da semana passada; isto é, sabendo que todas as palavras escritas estão igualmente abertas à inspiração da fonte eterna e igualmente sujeitas a erro, graças à imperfeição dos seus autores, entes mortais."
"[...] É que a religião inculcada pelos livros antigos é um ritual cruel e atroz de sacrifícios humanos, para aplacar os furores de uma criminosa divindade da tribu que, por exemplo, foi induzida a poupar a raça humana ao aniquilamento num segundo dilúvio, apenas pelo prazer que lhe dava o cheiro da carne queimada, quando Noé, «tomando de todas as rezes e de todas as aves limpas, lhas ofereceu em holocausto, sobre o altar»."


Georges Bernard Shaw,
The Adventures of a Black Girl
in Her Search for God,
1932

14 comentários:

MC disse...

o segundo parágrafo é uma temeridade que não subscrevo.

Um Deus que se compraz com o mal, com o clamor das Vítimas? Não creio.

Abraço, tacci

Anónimo disse...

Como deus não existe, o único sentido de apesar disso se dizer mal dele,é defendermo-nos do tanto mal que em seu invocado nome se faz.
Badesse.

jad disse...

Evidentemente, Badesse, que Deus não existe para quem nele não acredita. Não faltam razões para provar a sua existência e a sua não existência. Uma coisa me parece certa: duvidar da certeza que nega a existência de Deus. E esta também: duvidar da crença na omnipotência da razão. A não ser que pretendamos, com os positivistas lógicos, que as questões que não for possível confirmar são pseudo-questões. Se assim fosse, já tínhamos resolvido todos os assuntos que afectam a nossa precaridade e eliminado toda a poesia e, claro, a religião e a música e literatura e a arte e...
Felizmente para todos as #pseudo questões" continuam a desafiar-nos e a alimentar uma boa parte da razão de ser humano. Felizmente!

Anónimo disse...

A quem afirma a existência de deus, incumbe o ónus de a provar. Se afinal se trata de «acreditar», para quem não acredita,não faz sentido perguntar-se se apesar disso ele poderá existir.
Badesse

jad disse...

Completamente de acordo. O que eu contesto é a afirmação absoluta da não existência de Deus, ou de outra entidade ou natureza que escape à prova factual. Nunca contestei a afirmação "para mim Deus não existe". Contesto a afirmação categórica "Deus não existe", como se todos os milhões que acreditam na sua existência ainda não tivessem atingido o "estado positivo". Isso recuso. A crença é, como sabe, a aceitação da verdade de um princípio, de uma teoria, de um axioma a partir da qual se podem inferir outra ou outras. Não é exclusiva da crença religiosa.
Quanto à prova da existência de Deus penso que todas se condensam na agostiniana: "Deus ou está no teu coração ou não está em sítio nenhum". Portanto, tem razão, Badesse, "se afinal se trata de «acreditar», para quem não acredita,não faz sentido perguntar-se se apesar disso ele poderá existir".
Excelente domingo.

Kaos disse...

Olá Tacci
Desculpa vir aqui aos teus comentários falar da Farra Blogosférica mas aproxima-se o dia. Está tudo confirmado e podes ter todas as últimas informações e actualizações aqui
http://notasdokaos.blogspot.com/2009/10/vi-farra-blogosferica-e-ja-dia-30.html
um abraço
Kaos

tacci disse...

MC:
Não sei o suficiente da história das religiões para julgar da verdade ou falsidade das afirmações do Bernard Shaw.
Transcrevi-as apenas porque a polémica recentemente desencadeada pelo Saramago não tem nada de novo. O V. P. Valente, por exemplo, no Público, situa-a no tempo do Afonso Costa. E eu creio que é mesmo recorrente desde que, na nossa cultura, o espírito crítico ousou manifestar-se. Lembra-se do "Candide, ou de l'optimisme"? Como é possível que este seja o melhor dos mundos, pergunta Voltaire. E, se não é, porque consente Deus no escândalo da dor? Ou, na expressão de Augusto Gil na Balada da Neve que todos os portugueses sabem de cor:
"Mas, as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?"
Posso estar enganado, mas julgo que não são realmente os textos da Biblia ou de qualquer outro livro sagrado que estão em causa.
Tenho pena de que o nosso Nobel não tenha querido ser um pouco mais original, mas compreendo que não aceite que a questão já esteja «ultrapassada».
Para muitos de nós também não está. E, se me perdoa, para si, creio, também não.
Um abraço, MC

tacci disse...

Sérgio:
O que tu dizes é, para mim, o mais puro direito de resistência à tirania, sobretudo a das religiões instituídas. Mas elas não esgotam a religiosidade.
Poderá, eventualmente, fazer sentido perguntar-se: "um mundo com um Deus não fará mais sentido do que sem Ele?"
Penso que é a conclusão do Kant: para ele, Deus torna um mundo ético "raciocinável", ou "pensável", talvez. Mas, claro, este Deus de Kant não nomeou ninguém seu porta-voz.
Um abraço.

tacci disse...

Jad:
Fizeste-me lembrar o artigo do Eça, «Positivismo e Idealismo»:
"... mas tudo isto são temerosas questões. Descendo delas, mais especialmente para este renascimento espiritual, este nevoeiro místico [...] eu penso que ele será benéfico - benéfico como todos os nevoeiros [...] E isto é para nós, fazedores de prosa ou de verso, um positivo lucro e um grande alívio."
(Notas Contemporâneas)
O problema, como diz o Eça no Fradique Mendes, é que, muitas vezes, estes nevoeiros nos fazem entrar na taberna quando jugávamos entrar no templo.
Mas claro, quem não arrisca, que tipo de vida viverá?
Um abraço.

tacci disse...

Kaos:
Qualquer pretexto é bom para te ver nestas caixas de comentários.
Obrigado pelo aviso, vou já espreitar.
Um abraço também.

jad disse...

Caríssimo, Tacci
Neste caso, prefiro Platão, Sto Agostinho e Kant, com todas as portas abertas ou semi-abertas para o nevoeiro.
E, depois, tens razão: "quem não arrisca, que tipo de vida viverá?"

Continuas em forma.
Abraço

MC disse...

tacci,

de que é que andamos à procura? do mundo perfeito, é?

Eu não tenho resposta para o escândalo da dor dos inocentes, mas a Bíblia revela-me um Deus que não se compraz com a mesma. É a mensagem central da Bíbla. O mal está lá como espelho da vida, não como ensinamento.

abraço

tacci disse...

MC:
Faz perguntas a que não sei responder senão muito a meu modo. E não a quero, de modo algum, magoar nas suas crenças.
Nos anos sessenta, pelo menos, andava-se mesmo à procura do mundo perfeito: o amor e não a guerra, teologias da libertação e por aí fora, enquanto se cantava «we shall overcome».
Talvez os caminhos por onde andávamos nesses tempos não fossem os melhores: o LSD, por exemplo, que não terá sido a via ideal para a transcendência; mas isso não invalida a própria procura, pois não?
Quanto à dor, que dizer se não que também a não compreendo?
Mas é, julgo eu, escândalo duas vezes sempre nós aceitamos ser cúmplices, senão de Deus (que não é a sua leitura da Bíblia), pelo menos do Diabo.

Abraço também.

MC disse...

tacci,

sou grandinha e aceito que se questione a minha crença. Aliás, é o que mais faço. Tanto em relação à estrutura Igreja Católica, como à minha fé.

Fiquei surpreendida quando vi o Padre Carreira da Neves a dizer a José Saramgo que não tinha gostado que ele no livro chamasse filho da puta a Deus. Eu não gosto é quando vejo que muitos rejeitam Deus pela imagem que a Igreja ao longo dos anos mostrou do mesmo. Quanto ao resto Deus não se ofende e eu também não.

abraço