segunda-feira, março 08, 2010

Na Ilha de Jackson, porque não?

















And if We see You standing alone by yourself,
if you're lucky we'll ignore you.
If you're not lucky, we might throw rocks.
Because we don't like people standing there
with the wrong patches on their jeans...


Ursula LeGuin,
A very long way from anywhere else



Tenho-me lembrado muito do Tom Sawyer.

Às vezes dão-me assim, como que umas lembranças parvas, a propósito de coisas tão diferentes.
Como se não tivesse a chovido quase permanentemente, como se os rios não levassem força de água, como se encontrar um abrigo minimamente seco, com este tempo não fosse impossível, como se acender uma fogueira com lenha húmida não o tivesse denunciado já.
Mas, lembram-se de quando o Tom fugiu de casa para ir ser pirata?
Também ele se sentiu um dia injustiçado pela tia Polly, que costumava bater-lhe com o dedal na cabeça - nós, os adultos, que é que julgávamos? também somos peritos no tal bullying.
De súcia com o igualmente infeliz Joe Harper, mais o desclassificado Huck Finn de contrapeso, Tom abraçava de uma vez todos os pecados e lá partia ele, rio abaixo, a ser pirata.
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Bem sei, nem o Mississipi é o Tua, nem o pobre Leandro Filipe tinha ali perto uma Ilha de Jackson.
E como saberia ele que ser pirata é um modo de vida galante, superior a ser professor da escola dominical, quiça até, logo abaixo de ser presidente dos Estados Unidos?
Dá para pensar: aos doze anos, que sabe uma criança, que lhe ensinámos nós que o tivesse ajudado naquelas horars de angústia?
A avó velhinha ter-lhe-á contado a história do Gato das Botas? Ou a do João-sem-Medo? As histórias que ajudam a ultrapassar medos, que ensinam a ser o mais pequeno, como o Pequeno Polegar e a casar com a filha do Rei como o Marquês de Carabás?
Alguém lhe deu livros para ler? E que imaginamos nós que ele, se aprendeu, aprendeu com essas histórias? Com a idade do Leandro Filipe, eu já tinha fugido de casa para a Ilha Kirrin com a Zé e o Tim, para a Ilha de Jackson com o Tom, com Jim Hawkins e com o Long John Silver no Hispaniola.
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A ele, talvez alguém lhe tenha ensinado a fazer um requerimento, a interpretar uma notícia de jornal, a decifrar os enigmas da vida do Luís Figo.
Mas onde, no seu curto currículo, aprendeu a superar as crises, a fugir para ser pirata? Ou teve só, como mãe substituta, a televisão, com o seu corropio de Narutos, Digimons, guerreiros Ninja e Sandokus?
O herói dos nossos dias começa por ser o guerreiro invencível, mas transforma-se muito facilmente num atirador suicida. A escola é, regra geral, o alvo preferido. É lá que a discriminação se decide, que a criança percebe a que estrato social está destinado, é lá que as injustiças do nascimento e da fortuna nos agridem pela primeira e mais violenta vez. O Leandro poderia ter arrombado o armário onde o pai tem a caçadeira, roubado um saco de cartuchos e vingar-se das violências sofridas; mas era bom menino, optou de maneira diferente, voltou contra si próprio a violência que sentia.
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Percebam: o que eu esperava sem esperar, era que o Leandro, entre o receoso e o triunfante, voltasse; que tivesse lido o Tom Sawyer e que, com o apoio secreto de um ou outro amigo que lhe restasse, se tivesse escondido numa ilha perto, de onde pudesse assistir de palanque à sua vingança.
A gigantesca farsa que teria criado, involuntariamente, talvez, seria o seu triunfo.
Estaria agora de volta para gozar os louros de ter posto um País a pensar.
Porque é que Deus, ou Nossa Senhora, ou São Josemaría Escrivá não fazem um milagre? Porque não o fazem surgir, um nadinha sujo, a precisar de uma sopa quente e de um banho, uma mãe a aconchegar-lhe a roupa na cama e com a certeza confusa de que é um herói?
Já sabemos que não há justiça neste baixo mundo.
Mas, no lá de cima, não haverá ninguém?

6 comentários:

Graza disse...

Parabéns Tacci. Extraordinário porque é uma fantasia que todos fazem quando olham para o rio mas ninguém teve ainda a coragem de aventar. Que comovente e maravilhoso seria este hipotético final para o infortúnio do Leandro. Com que força dá vontade de acreditar nele…

Fado Alexandrino disse...

Muito bem escrito, acontece que eu também li os livros do Tom Sawyer e assim ainda mais apreciei o post.
Não vale a pena chorar, hoje ninguém sabe quem foi, não leram A Tulipa Negra, nem O Conde de Monte Cristo, nem O Cavaleiro Andante, Mandrake aliás nem sequer lêem.
Como gosto imenso de dizer mal por isso só quero só lembrar-vos que a solução deste problema não existe.
Basta ver a simpática velhinha que ontem foi entrevistado pelo Sousa Tavares que num "mambo-jambo" de alta qualidade falou sem dizer nada.
Só gostava de lhe perguntar, há quanto tempo não vai ao recreio de uma escola?
Sobre a ministra, tem mais jeito para escrever livros para crianças do que para perceber estas crianças que são jovens e batem como adolescentes.
Também gosto de ver aquele senhor da Associação de Pais ( o Albino não-sei-quê) que qualquer dia tem os bisnetos na escola.
Bardamerda, com vossa licença, para esta gentinha toda.

tacci disse...

Graza:
Quem nos dera que fosse verdade.
Provavelmente se tivesse lido o Tom Sawyer, a decisão que tomou seria outra.
Quem sabe?

tacci disse...

Fado Alexandrino:
Um dos mais violentos ataques contra a educação foi, justamente, ter retirado a literatura do ensino das línguas.
Não ligo tanta importância ao Mandraque - como se escrevia no Mundo de Aventuras, lembras-te? - nem ao Luís Euripo, mas concordo com o Conde de Monte Cristo, com a Morgadinha dos Canaviais, o David Copperfield do Dickens e por aí fora.
A literatura, ao contrário da imagem, faz imaginar «por dentro», faz imaginar o que se sentiria «na pele do outro».
A filantropia sempre foi muito desvalorizada, muito ridicularizada, porque dificulta o ganhar dinheiro a todo o custo: por exemplo, à custa do trabalho infantil.
Quanto à senhora ministra, também receio que seja uma menina de boas famílias, educada num coleginho de freiras e que não faz realmente ideia do que é a vida numa escola.
Mas este é o bom governo de Portugal, não é?

Fado Alexandrino disse...

É.
E nâo há nenhuma solução alternativa.
Um abraço.

tacci disse...

Fado Alexandrino:
Não sejas derrotista.
Lembras-te da "Espuma dos Dias", do Boris Vian? De quando Cristo diz ao Colin «C'est la vie» e o Colin responde apenas «Non»?