sábado, junho 19, 2010

Non omnis moriar

- Bem-vindo, José!
Adenda:
(alguns dias depois)
Andando longe do Portugal, caramba!, noutros e muito urgentes trabalhos, deparei com uma observação de Wittgenstein que talvez não seja disparatado citar aqui:
"Hoje em dia, os homens acreditam que os sábios existem para os ensinar, os poetas, os músicos, etc., para os divertir. Que estes últimos tenham alguma coisa para lhes ensinar, isso não lhes acode ao espírito."
L Wittgenstein, Vermuchte Bemerkungen (Reparos Misturados, talvez) 1939-1940

22 comentários:

Lelé Batita disse...

Foi apenas uma intermitência da morte. Ontem passei pelo velório. Vou escrever sobre isso.
Obrigada pelo magnífico desenho, bastante oportuno.
Com sempre, aliás!
Abraço.

Eduardo Salavisa disse...

É no Céu? ou no Inferno?

Lelé Batita disse...

Levei sem a tua permissão o desenho para o meu Blogue. Espero que não te importes e passes por lá. Um abraço.

jad disse...

Excelente, Tacci.
Mas a pergunta de Eduardo Salavisa é perturbadora. No mínimo.

Abraço

tacci disse...

Fizeste muito bem, Lelé.
(Sempre que alguém me leva um boneco o meu ego incha mais um bocadinho.
Se ficar insuportável de vaidade, avisa-me, sim?)
Um abraço.

tacci disse...

Eduardo e Jad:

Francamente!
Como é que não sabem a morada do José Saramago?
Não há nada mais fácil:

Sobem à primeira núvem à esquerda, procuram pelo Pavilhão Gaudi e perguntam por ele ao João Aguiar.

Um abraço para ambos.

Lelé Batita disse...

Não sei se não será mais fácil encontrá-lo perguntando logo de caras ao Saldanha Sanches...
Sim, se ficares muito vaidoso, eu aviso. Mas nessa altura tu é que já não consegues descodificar os avisos... ;-)
Abraço grande.

jad disse...

Sei que há muita gente a quem perguntar mas a pergunta de Salavisa mantém a perturbação se tivermos em conta o que Saramago disse em Penafiel na Escritaria (17/10/2009): "Não há comparação alguma entre o cidadão e o escritor José Saramago".

A tua ironia, Tacci, é demolidora... Como a ironia deve ser...

Abraço

Marreta disse...

O lugar simbólico merecido era o Panteão. O outro, nos corações e memória daqueles que o apreciavam.

Saudações do Marreta.

Fado Alexandrino disse...

Excelente boneco.
Um ignorante pergunta, quem é o fulano de azul?
Outro, por acaso o mesmo, admira-se de Saramago autorizar que o levem para qualquer lado além das cinzas que deitarão num sítio qualquer.
Ele não acreditava em nada.
Agora não sei.

tacci disse...

O camarada Zé Luis (Saldanha Sanches) também é uma possibilidade, Lelé. Mas mora numa núvem um nadinha mais para a esquerda.
Como sempre morou: um nadinha mais adiante, para o lado esquerdo, não é?

tacci disse...

PS, Lelé:
Acredita que tenho muito medo desse dia. Mas vai avisando. Às vezes, mesmo nos dias mais sombrios, há um raiozinho de sol a atravessar as núvens.
Outro abraço.

tacci disse...

Jad:
Lembras-te do Feuerbach?
Não foi Deus quem criou o Homem à Sua semelhança, foram os homens quem O criou à semelhança deles próprios?
E o céu e o inferno, em calhando, também não são mais do que os "sonhos da mente humana".
Mas temos direito aos sonhos e a criarmos os nossos próprios mitos.
Tudo o que te posso dizer é que o «meu Céu» é um céu de esquerda e cabem lá todos os Josés Saramagos, e todos os Saldanha Sanches, já agora, por mais ateus que tenham dito que eram.
Mais abraços.

tacci disse...

De acordo Marreta.
Julgo que, mais ou menos, é o que temos estado a dizer nestes comentários.

tacci disse...

Alexandrino:
Não, acho que não é verdade que o Saramago não acreditasse em nada; o que penso é que era muito radical nas suas dúvidas. Para ele, o preto era preto e não lhe fossem falar em cinzentices.
Eu sinto-me tentado a concordar: lembras-te de quando tentávamos embaraçar os nossos professores de filosofia e perguntávamos o que era «meio buraco»? Meio buraco é um buraco e pronto. «Meio mal» é a mesma coisa: é o mal e pronto, sem desculpas nenhumas. E não só quando são os outros a praticá-lo, hem?
Quanto ao senhor do fatinho azul: não ficou lá muito parecido, mas era para ser o Gomes Leal. Para mim, e isto vale o que vale, é o maior poeta português do século XIX e, quem sabe, do Luís Vaz até aos nossos dias...
Um abraço, mesmo que não concordes.

Andrea de Godoy Neto disse...

Tacci, este post é maravilhoso!

num comentário em meu blog, quando postei sobre o emudecimento de saramago, jorge pimenta escreveu que ele pertence àquela casta de eleitos que aproximam o homem da ideia original de deus.

teu desenho o mostra bem, escada acima, pairando sobre nossas dúvidas, nosso julgamento, nosso entendimento.

ah, se o mundo aprendesse mais com seus poetas, músicos, pintores, artistas todos...seríamos pessoas muito melhores.

um abraço

jad disse...

Tacci amigo,
sabes melhor do que eu que a existência de Deus está dependente da crença na sua existência. Se eu acreditar encontro razões justificantes da sua existência, se não acreditar encontrarei igualmente razões para a sua não existência. Ambas produto racional dos melhores filósofos que a humanidade criou. Portanto, o ateismo militante de Saramago não é impedimento para ser um homem bom. Nesse caso, tem lugar assegurado no teu Céu esquerdista (não é pejurativo:)). De resto, era isso que Saramago dizia desejar há nove meses na Escritaria,em Penafiel: "Que se me reconheça que sou uma boa pessoa. É o que me interessa". Nove meses antes da sua morte!...

Para mim, o problema é que me parece demasiada ambição querer determinar absolutamente a não existência de Deus como uma condição de realização ou de emancipação (que é um conceito fundamental para um ideário próximo de Saramago, como sabes)humanas. É demasiada ambição um ser tão limitado querer determinar tudo o que acontece e há-de acontecer. Parece-me.

Ainda para mim, há duas maneiras de olharmos, de nos olharmos: para fora ou para dentro. Para fora esvaziamo-nos, para dentro descobrimo-nos. E lá no fundo, muito no fundo, no silêncio, no não-ser, se quiseres, encontraremos a origem, a razão primordial. Creio que é isto que Nietzsche também diz em "O Nascimento da tragédia".

E o inferno? Fica para os outros?

Outro Abraço

tacci disse...

Bem vinda, Andrea.
Também penso, mesmo sem saber se acredito, que alguns de nós, humanos e não humanos, já atingimos um estádio final. Uma boa imagem do que estamos a dizer é a da espiral (?) das reencarnações: pelo modo como viveram - o caso do Ghandi, por exemplo - ou pela obra que realizaram - como o Mozart ou o Eça - algumas criaturas já se libertaram da necessidade de reencarnar.
O que, de certo modo, é uma pena. Bem gostávamos de que o Jorge Amado voltasse a estar entre nós e escrevesse outra Gabriela, não é?
Um abraço e volte sempre.

tacci disse...

Jad:

Não sei responder pelo que, lá no íntimo, no fundo dos seus terrores, o Saramago sentia ou acreditava.
Lembras-te do Brel?
"À mon dernier repas, je crierais Dieu est mort une dernière fois?"
E acrescenta logo:
"Et je sais que j'aurais peur une dernière fois"...
Eu sei que o Saramago teve medo, uma última vez, porque é o que pertence à nossa condição de ser gente.
Mas o medo que guarda a vinha (e o purgatório) não é nenhuma via para o conhecimento.
O Eça já tinha dito: depois do positivismo ter afundado o nosso barco e rasgado as nossas velas, só a imaginação nos poderá levar a essas longínquas paragens.
O Saramago não conseguia imaginar um mundo de liberdade em que existisse um Deus todo poderoso. Optou, julgo eu, por negar um dos termos da contradição, como o sr. padre lá da terra negava o outro.
Ambos estavam no seu direito. O que nenhum deles deveria era doutrinar à força.
Julgo que o Saramago passou por essa tentação, mas que lhe resistiu: o que ele vos disse, lá na Escritaria parece-me o sinal claro disso. Não dirias o mesmo?

Mais um abraço.

jad disse...

Não sei, Tacci.

Fiquei com a ideia que Saramago necessitava de um reconhecimento que não tinha a certeza de ter.
Tinha o reconhecimento intelectual, o reconhecimento pelas polémicas e posições tomadas em defesa dos palestinianos, dos guerrilheiros colombianos, dos sem terra brasileiros e posições contra Israel, contra "a coisa" Berlusconi e outros. Contudo, isso era suficiente para se tornar um homem bom? Pareceu-me falatar-lhe essa certeza.

Claro, Tacci, tínhamos que regressar à qestão primeira: "O que é o Bem?" ou a uma segunda: "o que significa agir bem", ou ainda "quando dizemos que alguém faz o bem"?

O cidadão Saramago, depois das certezas em que se fez ideologicamente e que alimentaram grande parte das suas polémicas, a nove meses da sua morte parecia, com alguma pena sua (afigurou-se-me), não estar seguro da bondade da sua acção. E, repara nesta jóia: "Acima de tudo eu ponho a bondade" (17/10/09).

O escritor Saramago é, sabe-lo bem, autor de livros fabulosos (continuo a colocar o Ensaio sobre a Cegueira no topo, mas não está lá sozinho...) de uma angústia claustrofóbica perturbadora (como o "ensaio"), com um pessimismo humano evidente ("a humanidade é má", disse-o vezes sem conta) mas sempre com a tal luzinha "dos amanhãs que cantam".

Em qualquer dos casos leio os livros sem me importar muito com o autor. O livro tem que viver sem o seu autor. Se não for capaz, se precisar das entrevistas, das polémicas, dos artigos apologéticos sobre o autor, não tem pernas para andar, ou asas para voar. E Saramago também os tem. Por uma razão elementar: sendo muito bom não é perfeito.

Doutrinação? Creio que tens razão. Procurou evitá-la nos romances. Mas há uma coisa que me perturba nele: afirmava as suas dúvidas como certezas absolutas... Esquisito, não é?

Grande abraço
(desculpas pelo tamanho)

tacci disse...

Jad:
Acho que o que dizes faz muito sentido.
O Saramago, para mim, está no extremo oposto de um outro prémio Nobel, o Coeetzee.
Encontrei no V. Jankélévitch uma distinção muito interessante que, vem já do Aristóteles: por um lado, o conceito de «alazonia» e, por outro, o seu contrário da «ironia». Uma é fanfarrona, diz mais do que o que sabe, ou diz o que não sabe; a outra é uma falsa humildade, finge não saber o que sabe. O justo meio deveria ser a «aletheia», a verdade. Mas essa é demasiado fugidia.
Resta ser um escritor de dúvidas, como o Coetzee, ou de certezas incertas, como o Saramago.
Mas, se para a dúvida o critério é simples, o Descartes disse-o há muitos anos, para as «certezas» não parece haver.
Há que assumir riscos quando se tem consciência dele, não é?
Terá o Saramago decidido que o único critério é essa "bondade", mesmo, como diz o Eça da Senhora D. Amélia, "talvez errando pelo lado da ciência, mas acertando pelo lado de Deus"?
Em que momento da sua vida e da sua obra terá decidido que era esse o critério e não apenas a ideologia?
E terá encontrado essa forma de ser bom de que necessitava?
Não sei, julgo que ninguém sabe, ao menos por enquanto. Esperemos pelos papéis pessoais, por uma investigação mais funda, por um testemunho mais decisivo, quem sabe se da esposa.
Como vês, a minha resposta ainda é mais longa do que a tua questão.
Desculparás tu também.
Mais um abraço.

jad disse...

Completamente de acordo, Tacci.

Abraço