quinta-feira, outubro 25, 2007

Autofagia

Deve ser verdade que o escritor só sobre si mesmo escreve. E que, quando o tradutor é um poeta, só pode traduzir-se a si próprio.


A vida do Homem

Nove meses no fedor, depois nas faixas,

por entre crostas, beijocas, lagrimonas.

Depois à trela, na andadeira, em camisinha,

pára-turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento da escola,

o á-bê-cê, a vergasta e as frieiras,

a rubéola, a caca na cagadeira

e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira

a pensão a pagar, as prisões, o governo,

o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no verão, a neve no inverno...

E por último - e que Deus nos abençoe! -

vem a morte e acaba no inferno.

G. G. Belli, 1833

Tradução de Alexandre O'Neill, que, por seu lado, escreveu:

O Enforcado

No gesto suspensivo de um sobreiro,

o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,

espantalho que ninguém vê,

suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

3 comentários:

ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
tacci disse...

Ó autor! Então eliminou a sua mensagem?
Francamente! E eu a julgar...

ana disse...

(...)"por outro lado, a própria escolha dos textos e autores a traduzir tem a ver vom os gostos, as perspectivas e as preocupações de cada poeta-tadutor, pelo que é rica em informações acerca das suas próprias obras(...)" Maria Eduarda Keating, TRelâmpago. Revista de Poesia nº 17 10/2005 Fundação Luis Miguel Nava