sábado, Dezembro 09, 2006

O velho, a carroça e o burro


Era uma vez um burrico, como qualquer burrico que dantes por aí andavam, de carga às costas ou a puxar pela carroça. Não tinha nome sequer, era o «arre burro», o «estupor do burro», quando não era pior.
Durante o dia carregava lenha, sacas de feijão ou de batata, seiras de azeitona. Ao fim do dia acartava com o dono adormecido, da taberna para casa. E se o dono era pesado!
Um dia, porém (tinha de haver um dia diferente, senão não havia história para contar) o burro zangou-se. Não era justo, caramba, era sempre ele quem puxava pela carroça, porque é que não havia ele, a partir de agora de ir sentado lá em cima?
E se bem o pensou, melhor o fez. Quando o dono saiu da taberna a trocar os passos e se quis apoiar à carroça, o jerico deu um passo em frente, o dono estatelou-se e ficou a dormir de borco na valeta.
'Agora é que é', disse o jerico. 'Vou fugir na carroça!'
E, libertando-se das rédeas, trepou para cima do veículo (hipomóvel, como diz o sr. Cabo da Guarda) : 'Arre burro', disse ele.
Mas, como os leitores todos já tinham previsto, a carroça não andou. E o burrico, desanimado, pensou que, bolas, não valia a pena dizer 'arre burro', porque o burro era ele. E usar o chicote, tá quieto! Não era parvo para bater em si mesmo.
'Bom, olha, o melhor mesmo é ir à pata, como sempre fui', decidiu.
E meteu os cascos ao caminho, cheirando os perfumes da noite e parando aqui e ali para tasquinhar uma ervinha.
Até hoje não voltou a casa.
Na aldeia toda a gente se ri quando vê passar o antigo dono a puxar ele próprio a carroça. Está bastante mais magro, dizem.
Moral desta história? Tem de ter uma? Então cá vai:
«Se não queres ter dono, tens de prescindir da carroça»
Feliz Natal!
Nota: Esta historinha é dedicada a todos os blogues por onde me passeio, mas muito especialmente aos autores do Blasfémias.

9 comentários:

Gi disse...

Quem era afinal o burro da história? :O)
As imagens, como sempre, absolutamente fantásticas.
Um abraço

tacci disse...

Olhe Gi, gostava de lhe poder dizer que este burro era eu, mas infelizmente por cá continuo a puxar pela carroça. Agora os donos, tanto faz que se chamem Durão Barroso, Santana Lopes ou Zé Sócrates (ou Belmiro de Melo e Amorim...) Devíamos deixar-lhes a carroça e partir para outra. A pé, claro. Pronto, se me disser que é um tanto anarca, terei de confessar que sim.
Um grande abraço. Gostei que tivesse gostado.

Anónimo disse...

Olá Tacci...

Sabe... um dia... eu assisti a uma cena real...
Qdo era mais pequenita...
Na terra do meu pai...
Ele tinha um tio que tinha um burro...
E certo dia.... na minha presença... aquilo correu mal...
E o tio caiu da carroça abaixo...
Fiquei tão assustada, que nunca mais me esqueci...
Sei que não tem que ver c a moral da sua história...
Mas é uma cena da vida real...

Um abraço

Ana

Anónimo disse...

LOLOL
Também me lembro de ver burritos a puxar carroças e outros "burros"! :p
Mas gostei da moral da estória! Gostei ainda mais dos desenhos, que tão fantásticos e caracterizam na perfeição o enredo! ;)

*Beijinhos*
Cláudia

Gi disse...

Tacci. Não está sozinho :O) não serve de muito mas parece que alivia o fardo :O)
Bom semana

tacci disse...

Cláudia e Ana:
Obrigado pela vossa visita. Também já assisti a algumas cenas com burros, desde o burro especado sobre as quatro pernas e que se recusa a sair do sítio, até um burrico velhote (em que eu ia montado) e que, volta e meia, parava, dormia uma soneca de uns minutos e recomeçava a andar como se não fosse nada com ele.
Eu adoro os burros: são espertíssimos, teimosos que nem uns burros e muito senhores do seu nariz. E, às vezes até são bastante mauzinhos, como, se calhar era o caso do burro que tinha o Tio da Ana. Depende muito do modo como foram ensinados e também, às vezes, como são tratados.
Beijinhos para ambas.

tacci disse...

Gi:
Serve sim! Nós sabemos que nenhum homem é uma ilha, mas é importante que o digamos uns aos outros.
Um grande obrigado.

badesse disse...

Meu Velho:
Os desenhos, já sabemos, estão sempre bem. Mas finalmente veio um texto como podias escrever muitos mais. Gostei.

tacci disse...

Meu caro Esse, sejas bem aparecido e obrigado pelo teu comentário. Também gostava de escrever mais fábulas destas, mas confesso, nem sempre aparece a inspiração. E os 90% de transpiração, acredita, não chegam.
Por outro lado, o que estou a tentar neste blog, ainda que erraticamente, é perceber que categorias mentais vão compondo esta coisa de ser português.
Como nem sempre estou para aí virado, vou-me divertindo aqui e alí.
Um abraço.