domingo, abril 08, 2007

O cão que jogava xadrez IV

Mas, Senhorinha Minha, eis que tudo se precipita, Carlinhos, escada, os Cães do Guarda, tudo desaba fragorosamente arrastando na queda jaulas, redes, passadiços, tralha indistinta numa confusão de ferros torcidos, arames enredados, água jorrando em repuxos vários, o coro dos ladridos, rosnadelas e uivos.
- Um pandemónio!
Era o que diria a Mãe do Carlinhos (e sua estimável Tia) se visse um livro do mesmo Carlinhos poisado em qualquer braço de uma das poltronas em frente à televisão.
E era mesmo! O Demónio estava por todo o lado, a fazer das suas!
Sobrepondo-se ao já de si elevado ruído, um mais agudo e irritante uivo se ergueu enquanto luzes azuis se acendiam, alternando com as vermelhas que se apagavam, avisos de cores diferentes acendiam-se à vez.
«Sorria, está a ser filmado», dizia um.
«Para sua segurança», dizia outro, «tudo o que fizer está a ser gravado e pode ser usado em tribunal contra si».
E foi, quando a escada perigosamente inclinada estava quase a cuspir fora o Calinhos, que o senhor desgrenhado só com um olho lhe deitou a garra à gola do polar e o içou para cima de uma viga de ferro:
- Tás a ver o que fizeste, ó bardajola?
Em equilíbrio precário – e pré-cárie também, como explicou o odontologista à Mãe do Carlinhos noutra altura. Estavam nas traseiras da Loja dos Chineses onde ele tinha o consultório de acumpuntura e outras especialidades rentáveis – e não sei, Gentil Senhorinha, se não incluiriam a massagem tailandesa lá mais para o fim da tarde.
Mas isso é outra história que contaremos um dia, se Deus nos der vida e saúde e a electrónica não faltar.
Voltemos, portanto, ao Carlinhos que se agarrava com unhas e dentes, à viga de ferro, olhando para a confusão lá de baixo e sem perceber bem o que dizia o homem desgrenhado só com um olho. E é pena, porque ele dizia coisas interessantes:
- Um Canil Municipal é uma coisa séria, rapazinho! Inscreve-se no grande rio da vida canina como os hospitais e os asilos para os velhadas se inscreve no da vida humana, não percebes? Temos cá sempre um ou dois estudantes a investigar, lá para aquelas trapalhadas dos doutoramentos. E agora olha! Estragaste tudo!
Mostrava com a mão o caos lá em baixo.
- O Senhor é que é o Guarda?
- Eu? – deu uma sonora gargalhada – Não, rapazinho! Eu sou o Deus dos cães! Não vês as minhas orelhas?
- Não tinha reparado. – disse o Carlinhos, um tanto ofendido por se estarem a rir dele.
Além disso, tinha ouvido falar num Deus Único, lá na Igreja, quando fizera a preparação para a Primeira Comunhão. Não acreditava que fosse aquele sem-abrigo! Um Deus Único a sério tinha de vestir assim de branco até ao chão, mesmo se aquela maneira de vestir à tropa até fosse muito mais fixe para andar por cima das traves.
Mas, e se fosse verdade? À cautela, acrescentou:
- Então o senhor é que me pode encontrar um cão que saiba jogar xadrez e não se importe de ser aspirado todos os dias para não largar pelos na alcatifa!
- Não me parece, rapazinho, não me parece! Os cães não jogam… às vezes brincam, mas não jogam. O jogo, sabes, é uma mentira e os cães, ás vezes, lá que são fingidos… Mas não, jogar xadrez não me parece. Não preferes um chimpanzé?
- Não. O que eu quero é um cão que saiba jogar xadrez e não se importe…
- … De ser aspirado, já percebi. Mas espera…
Debruçou-se na viga de ferro e soltou um assobio agudo que se sobrepôs ao grito enrouquecido dos alarmes que começavam já a estar sem bateria.
Uns vultos pretos surgiram lá de baixo e treparam às gaiolas para ouvir melhor. O homem sem um olho que dizia que era o Deus dos Cães perguntou:
- Não chega ainda de diversão, seus diabretes?
- Só mais um bocadinho…
- Sim, sim, só mais umas corridas...
- Pronto! Mas só até eu chegar lá abaixo. Depois prendem os cães do guarda e arrumam tudo.
- Fixe! – gritaram os diabretes.
E o pandemónio redobrou.
- Anda comigo, tu ó bardajola!
Desatou a correr pela viga fora, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida.
O Carlinhos, trémulo de medo, lá se foi arrastando atrás dele.
Onde chegaram, no entanto, só o posso inventar mais e depois.
Por isso, Senhorinha, embora tenhamos de deixar a continuação para a próxima ocasião, confiemos em Deus (não, não é o dos cães, é o Outro) e a continuação não há-de faltar.

2 comentários:

ana disse...

que o "e depois" venha depressa

tacci disse...

Prometo fazer os possíveis, porque, como se costuma dizer, os impossíveis levam mais tempo e como tu tens pressa...
Beijinhos, Anita