segunda-feira, abril 02, 2007

O cão que jogava xadrez III


Se ainda se recorda, gentil senhorinha, abandonámos o seu Primo (o Carlinhos, dado que tem muitos outros) no Canil Municipal, prestes a gritar «Há aí algum cão que saiba jogar xadrez?»

Reparo, no entanto, que me diz, daí desse lado:

- Meu Querido Amigo, sei que não abandonou o meu pobre Priminho. Está a brincar, não está? Diga-me que sim... (1)

Tem toda a razão e não posso deixar de esclarecer que este "abandonámos" é meramente retórico. Nem o Carlinhos se deixaria abandonar sem um protesto sequer - a menos que lhe desse jeito ficar sozinho - nem eu teria coragem para o abandonar sem mais aquelas, como vai ver.

Reprova-me também, ainda que com a sua proverbial discrição, aquela insensata frase onde digo que tem "muitos outros [primos] no Canil Manicipal" e que se presta a interpretações de duvidoso gosto.

E tem, mais uma vez, toda a razão, a culpa é das minhas fraquíssimas notas a Matemática. Nunca soube se se soma primeiro e se multiplica depois ou o contrário e o que é que se tem de meter dentro dos parêntesis. Consultei, porém, o seu Primo Carlinhos e ele, impaciente por sair do mesmo sítio e continuar a busca de um cão que saiba jogar xadrez e não se importe de ser aspirado todos os dias pela Mãe (a sua estimável Tia, Mãe do Carlinhos, não do cão... hum... acho que me perdi... onde é que nós íamos? ah!:) ...para não largar pelo na alcatifa, explicou-me como é que devia fazer.

Portanto, gentil senhorinha, quando reler esta narrativa verificará que já emendei o clamoroso erro e que, tendo tudo isto perdido a razão de ser, sou obrigado a apagar desde o princípio e começar de novo com receio de algum paraoxo acidental.

Portanto, cansado de perguntar à esquerda e à direita, para baixo e para cima, o Carlinhos (o seu Primo, já tinha dito, não tinha?) parou no mais próximo cruzamento de corredores e dessa encruzilhada lançou um grito:

- Alguém aí sabe jogar xadrez?

O efeito foi catastrófico: não só porque o grito terminou com uma fífia de todo o tamanho (o Carlinhos estava na muda da voz), como de todos os lados, de cima e de baixo, da frente e lá de trás, da esquerda e da direita, se elevou um clamor imenso de ladradelas, ganidos, uivos e rosnidos.

- Calados, já! - ordenou o Carlinhos para o ar e sem qualquer efeito.

Tapou os ouvidos, mas o som atravessava as mãos, feria os tímpanos, fazia tremer as gaiolas com um som metálico como se estivessem a ser abanadas por um novo 1755, daqueles que a prof de História e Geografia tinha mostrado no power point e a maralha tinha começado a imitar batendo com as mesas e com os pés, trum-trum-trum e depois o Zé Nesgas gritou:

- Professora, bute fazer a evacuação da Escola!

E desataram todos a fugir e a gritar pelo corredor fora, «tremor de terra, tremor de terra!» e era portas a abrir-se e putos a correr por todo o lado e a contínua Gracinda a gritar também e só Stora de História é que dizia «não é nada, não é nada!»

Qual não era nada! Era mas era treze putos para o Seguro Escolar fazer curativos, uma pancada de vidros e cadeiras partidos, livros e canetas pisados, roupas rasgadas. E só suspensões, foi um dia para a turma toda, três para o Tavares e para o Anjolas e cinco para o Zé Nesgas que não convenceu ninguém de que nesse dia tinha faltado porque estava com asma.

E, no meio do alarido (do Canil, não da aula de História), o Carlinhos reparou que havia cães nos corredores.

- Corre - gritou-lhe um rafeiro da jaula ao lado. - São os Pitbuxos do Guarda!

- Trepa - gritou-lhe outro. - Eles correm mais do que tu!

- Trepo onde? - pensou o Carlinhos e desatou a correr, com a barriga a saltitar e os bofes a sair-lhe pela boca.

Havia uma escada de ferro, daquelas verticais, que levava lá acima ao passadiço. O seu Primo (o Carlinhos) atirou-se para o quarto degrau, voou para o quinto e o sexto enquanto meia perna da calça se rasgava e caía para o chão com um Pitbuxo agarrado.

Trepou ainda mais três degraus e teve de parar, agarrado com quantas forças tinha, o corpo todo a tremer como se fosse geleia e a respiração pior do que a da garina da entrada. Em baixo os Pitbuxos saltavam a tentar chegar-lhe aos ténis.

Foi quando lá de cima, do passadiço, lhe chegou um berro tonitroante que se sobrepôs ao vozear do cães. Uma cabeça desgrenhada espreitava-o de lá de cima. No meio do seu pânico, o Carlinhos reparou que aquela carantonha horrível só tinha um olho.

(1) Para os jovens menos afeitos a estes jurássicos falares, deixo aqui uma tentativa de tradução: «Com'ék'é, ó palhaço? Deslarga-s'assim o baril k´é meu primo?»

(continua, Deus sabe até quando, nos próximos números)

9 comentários:

Anónimo disse...

O primo Carlinhos deve estar cheio de medo. Nem digo nada à senhora minha mãe, que ela diria logo: "tenho que ir falar com a tua tia que aquela mulher com a mania das limpezas até se esqueçe que tem um filho..."
a que se assina prima do Carlinhos e o tem (a si) como amigo

Maria disse...

Os traidores não se recompensam; abatem-se.

Anónimo disse...

Maria, a incapacidade de amar de algumas pessoas não nos permite a sua eliminação, mesmo que esse seja o nosso desejo intimo.

A prima do Carlinhos

Gi disse...

Os cães com capacetes de guarda imperial estão um "must" :)
dê em doido à vontade com a história que eu daqui vou-me deleitando com ela!

Beijinho Tacci

Gi disse...

Tacci, pus a música no blog mas passa despercebida porque está com um marcador de animação. Não ligue aos bonecos oiça só depois diga-me o que acha. Gostava de ouvir a sua opinião
põe o http:// primeiro (disseram-me para nunca colocar o endereço completo não sei porquê)

www.youtube.com/watch?v=40Br07CF0qk

Noite feliz

badesse disse...

Olha lá, o cão que jogava xadrez não foi aquele que ensinou o xeque básico ao pastor e este depois lhe deu o seu nome? São sempre assim, os donos, aproveitadores.Deveria portanto, legitimamente, chamar-se, o xeque do cão do pastor.

tacci disse...

Gi, ando atrasadíssimo com os deveres da amisade, pelo que lhe peço que me perdoe. Crianças aos pulos pela casa, cães, e mais gente, era o menos. O mais complicado é fazer alguma coisa de geito quando um neto se encosta ao computador e pergunta "deixas-me jogar um jogo?" ou: "fazes-me um desenho?", "esse é para mim?" E por aí fora.
Mas enfim: o Carlinhos está de volta finalmente e eu já posso desejar-lhe que tenha passado uma Páscoa pelo menos tão animada como a minha - e um tanto menos trabalhosa.
Beijinho, Gi.
E muitos, muitos parabéns pelo dia de hoje.

tacci disse...

Quanto ao outro assunto, Gi, se não me enganei e se trata dos "Antony and the Johnsons" e do "You are my Sister": andei à procura deles, no Google e no Youtube. Encontrei as letras das canções e, confesso, não fiquei grandemente entusiasmado: dá-me a impressão de que devíamos classificar a arte do Antony no capítulo "performance" e não tanto na música.
Muitos artistas - suponho que sempre foi assim - usam a arte como pretexto para se exporem constantemente a si mesmos. Em teatro chama-se cabotinismo. O problema é que, por vezes, aquilo que começa como pretexto ganha asas e toma o palco todo.
Pode ser que isso venha ainda a acontecer com o Antony. Mas, Gi, a minha opinião ultra-não-especializada vale apenas o que vale, quer dizer: muito pouco.
Mais um beijinho, Gi.

tacci disse...

Meu Caro Sérgio, só o machismo reinante permitiu deturpar os factos: primeiro porque, quando se diz «xeque à Pastor», isto só tem uma interpretação, tal como o Bacalhau à Zé do Pipo. Quer dizer «ao modo de». Mas, e se fosse uma gentil pastorinha como, de facto, se tratou? Aí compreendemos as persistência das histórias de Zagais e Zagalas e dos xeques que se iam dando uns aos outros. Recomendo, portanto, meu caro, a adopção da forma «cheque à pastora»: só precisa de cobertura no Inverno, quando fizer muito frio.
Um abraço.