segunda-feira, julho 02, 2007

O Cão que jogava xadrez XVI

Pois, Gentil Senhorinha.
Tinha jurado não mais voltar a este computador, nem de dia, quanto mais pela calada da noite. Tinha dito a mim próprio que devo aceitar a minha própria cobardia, os meus medos e não mais arrostar com os terrores de uma escuridão em que a lanterna cria um estreito cone de luz deixando como que em negativo toda uma zona incerta de onde as mais horríveis abominações nos espreitam.
Mas vim. Acabei por vir, após voltas e reviravoltas no estreito catre, mais estreito ainda por ocultar todo o meu tesouro nesta enfermaria de loucos de que faço parte e em que diariamente a minha personalidade se dissolve.
Nesta camarata, enfermaria, sala de exposições aberrantes, que me resta nas longas noites?
E não resisti ao apelo deste ecrã fracamente iluminado. Não resisti a falar um momento mais com a minha Senhorinha, nem me resignei a abandonar o seu Primo Carlinhos que, como talvez não recorde, tinha ido ao Canil Municipal, SA - ou EP, ou uma sigla dessas cujo significado não abranjo - para arranjar um cão que jogasse xadrez e que não se importasse de ser aspirado porque a Mãe (a sua estimável Tia), com a mania das limpezas, jamais consentiria no menor pelo na carpete.

Ora, porém, a dificuldade está realmente aí: ser aspirado, gentilmente, como a sua Tia não deixaria de fazer, era o menos.
Jogar xadrez é que era mais complicado.
Não, como as benévolas Leitoras e os Cavaleiros que as acompanham talvez tenham pensado, por inferioridade do córtex cerebral ou por falta de um polegar oponível com que mover as pedras no tabuleiro. Não, os cães, como explicou a Magrizela mais tarde, jogam jogos muito complexos como, se a minha Senhorinha me perdoa a expressão que para eles é naturalíssima, o «Cheira aqui que eu cá mijei» ou o «Mija bem, quem quem?».
Este último jogo, sobretudo, merecia uma análise mais completa do que a que eu estou habilitado a fazer.
A minha Senhorinha já reparou certamente que os cães, ao contrário de nós, não vivem num mundo instantâneo. O sentido dominante nestes nossos amigos, sendo o olfato, permite-lhes «ver» um pessoa, por exemplo, um pouco antes e até muito depois de ela passar. Nós primatas, mantemos na nossa retina, as imagens poucas centésimas de segundo. A nossa amada, para os felizes que a têm, desaparece da nossa vista mal dobra a esquina.
Para o nosso cão, ela está ainda ali, e estará por tanto tempo quanto as moléculas do seu odor se não dissiparem por completo, o que pode demorar dias. Ou então, como para nós se vê mal em dias de nevoeiro, também para eles há dias em que os cheiros se misturam e se confundem como o templo e a taberna do Fradique Mendes.

Mas vejo, Senhorinha, que a estou a impacientar.
O que eu queria dizer é que os cães realmente bons nestes complexos jogos, escolhem estes dias de nevoeiro olfactivo para os seus campeonatos de «Mija bem, quem, quem?» E o vencedor, por vezes um rafeirote como a Magrizela ou um bassêzeco de rodas baixas, ganha no bairro um prestígio que nada na sua falta de elegãncia e dotes concursáveis faria prever.
Mas xadrêz, não. Como comer uma peça e deixar de contar com ela se o seu cheiro, a sua essência, no fundo, permanece em jogo?
Por isso, Anofis, o Deus Chacal resolveu que tinha de compensar o seu primo Carlinhos de algum modo.
Como o fez, isso, Senhorinha, receio só conseguir dizê-lo mais e depois.

7 comentários:

Anónimo disse...

o meu amado está em todas as esquinas...
agf

ana disse...

ai lembrei-me do jogo da majora...

ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
tacci disse...

Olá AGF: tem sorte. A minha amada, por seu lado, deve destestar as esquinas.
Um abraço.

tacci disse...

Pois, o jogo da Glória e o castelhano La Oca. Mas olha que o "Mija bem, quem, quem?" é muito mais complexo: cada cão que passa tem de, primeiro, identificar todos os que passaram antes dele. E depois, disfarçar a sua própria assinatura. Claro que os cães mais experientes e com melhor capacidade de leitura fazem gala em ir no fim da fila, com intervalos de muitas horas. Aos estreantes não é permitido iniciar o jogo, mas reservam-lhes os primeiros lugares.
É evidente, a pontuação máxima seria obtida pelo penúltimo cão, se conseguisse identificar correctamente todos os anteriores e disfarçar de tal forma que o último se enganasse sobre a sua identidade.
Conta-se - mas pode não ser verdade - que um dia a cãzoada do bairro do Castelo decidiu pregar uma partida a um perdigueiro particularmente snob: todos os cães antes dele, escolhidos a dedo, tão bem fingiram que o pobre
peneirento andou o dia todo de nariz no chão a dizer: «AH! Aqui passei eu. E aqui também... olha, e aqui...»
Já vês, a Oca ao pé disto é um jogo para cachorrinhos.
Outro chi.

ana disse...

jogo bem giro, foi auqele cão lindo que te ensinou?

tacci disse...

Sim, claro, o Rover ajudou, mas a verdade é que numa das minhas vidas anteriores fui cão - vadio, muito esfomeado, mas razoavelmente feliz, pelo menos quando encontrava um abrigo quentinho para um dia de chuva ou quando passava uma cadelinha particularmente atraente e nos envolvíamos todos à bulha por causa dela. Isso é que era vida. Havia muito campo em roda das cidadezinhas, Lisboa era um aglomerado de pequenas aldeias, saía-se das ruas poeirentas, havia ratitos, coelhos, pássaros por todo o lado. Hoje, no meio do betão, já só vivem as ratazanas e até os pombos sabem a ração. Estás a ver, quando tivermos de reencarnar da próxima vez, o melhor é escolhermos um destino de gaivota: voam de um lado para o outro, poisam nos telhados, ninguém as consegue domesticar e gostam imenso da coisa que mais abundante se vai tornando: o lixo.
Um abraço.