segunda-feira, abril 14, 2008

O Insecto Imperfeito, de Beatriz Lamas de Oliveira

Quem tem farelos?






um



Julguei durante longo tempo ter sido a única pessoa neste mundo a dar-se conta d'O insecto imperfeito.
Não era um livro particularmente chamativo. Tinha uma capa alaranjada, um desenho a negro, tipo um grilo dentro de uma gaiola nem por isso muito bem desenhados. A Gradiva não tinha feito um esforço muito notório.

O nome da autora, Beatriz, provavelmente a Bia como a tratariam os amigos, e os apelidos Lamas de Oliveira pelo lado familiar, não diziam nada. Porque é que se compra um livro destes, é um mistério. Haverá um Anjo da Guarda dos leitores empedrenidos? Sabem? Aquele que nos puxa pela manga e, sem contemplações, nos grita ao ouvido:

- Leva esse, ó estúpido!
O desatento comprador agarra-o, um pouco ao calhas, entala-o entre outros mais sonantes: um policial que nunca mais recordará, um importante autor norte-americano com direito a página e meia nos suplementos literários e os poemas do Nuno Júdice.


dois




E a leitura, quando chega, é surpreendente. Uma história de sedução, quase os anos de aprendizagem de um velho abusador.

Lembrou-me uma amiga que, num daqueles dias desesperados, perguntava: «Mas porque é que os homens são tão aproveitadinhos? Não nos querem, mas aproveitam sempre uma queca de borla...»

Foi gentil e poupou o meu amor-próprio: não disse «vocês os homens». Eu era muito jovem, muito apaixonado, casado há pouco tempo, e ter-me-ia magoado. Mas fiquei a pensar. E voltei a pensar. E penso de cada vez que a barca da paixão cruza a linha do horizonte e o gajeiro grita de lá de cima: «cachopa à vista!». É uma das minhas dúvidas mais recorrentes. Porque é que nós, os homens, tínhamos de ir a todas?

Emprestei o livro à esquerda e à direita (honnit soit...).

Procurei outros exemplares pelas livrarias para o oferecer. Fiz a sua apresentação numa escola secundária.

E, tirando a minha modesta pessoa, só encontro outras duas que parecem ter reparado n'O insecto imperfeito.


três





Uma delas acabo de a encontrar através de um motor de pesquisa: a Fernanda Botelho, que em 99 fez para a Gulbenkien a recensão do livro. Trancrevo como encontrei, se bem que, apostaria uma garrafa de bom tinto Duas Quintas contra uma de reles cola: a Fernanda Botelho, se tivesse sido ela, escrevia muito melhor do que isto:

"A obra está cuidadosamente escrita, com boa clarividência psicológica, mas o leitor? eu pelo menos, não entende lá muito bem a finalidade, o objectivo, a mensagem a recolher da leitura?..."

A Fernanda Botelho era uma mulher muito inteligente. Como tenho lido muito poucas, e muito poucos. Acredito que deixou estas perguntas para si própria, sem nenhuma intenção de fazer delas uma nota crítica. Mas é o que se encontra na net.



quatro



A outra pessoa que reparou no livro de Beatriz Lamas de Oliveira foi o Sérgio de Sousa que tem honrado este blog com a sua atenção (não muita) e sobre ele escreveu na revista «Leiamos» de Maio de 2000 (Edição de Editorial Escritor, Lda).

Com a devida vénia, transcrevo o que a este livro diz respeito:


"... Embirrei com o livro antes de o ter lido," escreve Sérgio de Sousa, "quando o vi numa livraria. Seria algum contraponto à novela de Júlio Moreira, O Insecto Perfeito? Folheei-o e não me pareceu. Romance, dizia-se. Com 98 páginas, apenas duas personagens principais? Resmunguei, apegado a antigos critérios de classificar as prosas.

Depois, de uma amiga, circunstancialmente colega de liceu da autora, ouvi o comentário: «É giro, achei-lhe alguma piada.» E assim se dá cabo, autenticamente esfrangalha um livro.

Por aspectos marginais, sem minimamente ter tomado conhecimento do seu texto, eu já embirrava com o livro.

Li-o e fiquei a gostar dele.

A primeira impressão foi: Que impacto teve uma relação amorosa na autora, que ela teve de vir dissecá-la na pele de extraterrestre.»



cinco



«O livro é mais profundo do que um ajuste de contas, é imaginativo e rigoroso.

Também existem mulheres que acalentam sonhos grandiosos e vagos, que levam a vida a imaginar êxitos, que jamais pensaram no que precisavam de fazer para os alcançar, que entretanto vão seduzindo homens que se deixam encantar pelos seus cantos de sereias e outros encantos mais palpáveis, e as vão sustentando, e depois essas mulheres acabam muitas vezes sós, sem amparo. Também há mulheres «pentacoladoras», e Beatriz Lamas de Oliveira não o ignora.

Mas não é delas que trata este seu livro, em que a protagonista desperta, com uma serenidade científica, da envolvência numa relação que nos relata com palavras precisas.»



seis



«A protagonista é uma extraterrestre colocada em Braga, num corpo de mulher, que ali se envolve sentimentalmente com um estrangeiro. Termo de duplo sentido, estrangeiro porque catalão, e porque, pelo menos para a protagonista, à partida estranho, o que comporta também múltiplos significados, desconhecido, esquisito.

Incarnada mulher, a extraterrestre representa o papel respectivo. A duplicidade da personagem vai servir a análise do envolvimento a que como mulher se presta, e a do distanciamento a que, como extraterrestre, dilucida a evolução do relacionamento.

E o jogo entre os comportamentos da extraterrestre e da mulher resolve-se numa síntese que é a missão.

Missão para cujo cumprimento a extraterrestre foi enviada à Terra, missão que é afinal o sentido «extraterrestre» da atitude feminina, de se deixar envolver e persistir numa relação com premissas para si erradas, empenhando-se numa transformação.»



sete


«Enquanto mulher, a protagonista inscreve-se na classe média superior, presta auditoria a empresas que preferem pagar caro a ela, para se verem livres de uma caterva de empregados a quem pagam pouco.

O estrangeiro é filho de uma prostituta, criado um pouco ao deus-dará, que foi passando pelo insucesso escolar, pelo «desenrascar-se» na tropa, e aprendendo expedientes de sobrevivência, «o valor dos favores como um capital de troca acumulável», «a usar o sexo, por um lado como afirmação das suas capacidades masculinas, por outro, como uma cenoura, que se vai acenando ao burro para o manter no bom caminho», confiando na sua experiência junto de mulheres carentes, a arranjar desculpas «para matar o tempo que era incapaz de utilizar», «em vez de envidar esforços para concretizar algum projecto de vida... a espraiar-se... em projectos de fantasia desinibida...» não se dispondo a desenvolver competências próprias, mas a aproveitar-se das dos outros, reclamando «direitos de proprietário em descanso merecido», desprezando todo o trabalho tido como feminino, revelando-se na realidade inábil, mas muito treinado a inventar desculpas para as suas incapacidades, nunca reconhecidas, antes sobrestimadas as capacidades, confundindo compartilhar com acomodar-se, aproveitar-se, julgando-se, ou agindo como se fosse, isento das obrigações comuns, insensível ao gostar e a compreender o desgosto, e por fim a repulsa, que isso provoca nos outros, o estrangeiro acabara vivendo sempre, afinal, à custa de sucessivas, temporárias, esperançadas amantes.»


oito




«A esta conclusão acabou por chegar a protagonista que, também ela, em espírito de missão, atinge contudo um momento em que quer apenas voltar a sentir que é responsável tão-só pela sua vida, que verbaliza que «duas pessoas não podem viver juntas só porque uma delas acha muito triste viver sozinha...»

O momento em que recusa um homem de quem tenha de tomar conta como um filho, em que quer ter uma relação «de igual para igual», com um homem responsável, com projectos e meios próprios, um homem cuja vida se não resuma à actividade de «pentacolar».



nove




«Beatriz Lamas de Oliveira, que ao longo da sua narrativa vai inserindo várias palavras com uma precisão cirúrgica, de que são exemplo as «tuas estupidezes», pag. 18, referindo-se aos trabalhos domésticos, «que quase nunca se atrapalhava» (o estrangeiro), referindo-se aos seus subterfúgios, e muitas outras, com especial destaque para os termos castelhanos, inventou ainda essa palavra conceptual, «pentacolar».

A «pentacolada» é um desporto radical imaginário, cuja prática requer um equipamento com cordas e ganchos, mas nada mais é precisado. O leitor, que já assistiu, pelo menos pela televisão, a largadas de pára-pentes, a escaladas alpinas, a gincanas de motocross, facilmente se identifica com esta actividade, que requer «audácia, esperteza, força, atributos masculinos», daí que surja como «a actividade masculina iniciática predominante». Em que, atrevo-me, permanentemente se oscila colado, dependente.»


dez




«A novela, prefiro chamar-lhe assim, de Beatriz Lamas de Oliveira, narra um caso extremo de vida de um homem que, na verdade, sempre se colou, e dependeu, pelo sexo, de mulheres que o foram temporariamente sustentando, oscilando entre umas e outras. Mas este caso extremo tem ressonâncias apenas ligeiramente atenuadas no machismo generalizado, e no comportamento típico masculino.

A relação homem-mulher, em que aquele que se pretende depositário da responsabilidade familiar, mas que se revela inábil na resolução de assuntos práticos e rotineiros da vida, imaturo, e a mulher acaba por arcar com o assegurar do dia-a-dia, o prevenir, o proteger, com paciência missionária, é um padrão ainda dominante.
(...)»

onze


«Pentacolada». Pois.
Tout communique, diria o Jacques Tatti.
Porque é que vocês os homens são tão aproveitadinhos, perguntava a minha amiga, há já muitos anos. Não creio que ela se lembre. Ainda bem, porque ela é uma Senhora.
Mas eu lembro-me, porque a dúvida foi ela quem a lançou. Receio não ter sido sempre um cavalheiro. Mas quem nunca praticou essa tal «pentacolada» que me atire a primeira pedra.

26 comentários:

anita disse...

A missão era que não "arrastasse consigo a perda da individualidade dos outros" tornar o Uriel um ser não isento, ( isento= sem contrato - eu chamar-lhe-ia compomisso- com os outros e o meio, não sentir portanto) e o capítulo 16 que se intitula O acordar despido acaba com o o Uriel a dizer Lo sinto (eu sei da ambiguidade)

Anónimo disse...

Obrigado pela tão longa citação.
Fernanda Botelho, com bastante idade e doente, não foi a única nessa situação a escrever notas de leitura para uma biblioteca defunta, ganhando uma pequena paga por esse trabalho de duvidoso aproveitamento.

tacci disse...

Anita, se bem interpretei a leitura do Sérgio de Sousa, a missão da «extraterrestre», em primeiro lugar é salvar-se a ela própria desse sorvedouro que são as personalidades «isentas» como a do Uriel. Não me parece líquido que ele, depois de corrido de Braga, não vá mais uma vez, escolher outra cidade, abusar de uma outra Dores. É esse lado aberto, dramático, que torna o livro tão pungente, que o faz ultrapassar o domínio da ficção científica: é cada vez menos importante ao longo da novela o papel da extraterrestre e cada vez mais o da mulher.
Mas, enfim, teremos de conversar com a autora um dia destes.

tacci disse...

Meu caro Sérgio:
A Fernanda Botelho teve o cuidado de deixar interrogações em vez de traçar riscos com um desses novos lápis azúis tão em voga, o que só a honra. São, se bem percebi, anotações como as que fazemos, por vezes à margem dos livros - e, mutatis, etc. como o Fermat com o seu célebre teorema. O que é enigma para o leitor, pode ser o início de uma pesquisa do autor. Ou um resumo de um percurso a seguir se e quando os deuses permitirem.
Mesmo assim, a B. L. de Oliveira pode gabar-se de ter provocado na Fernanda Botelho alguma inquietação: é ou não é muito mais do que provocaria a Magaída?

tacci disse...

PS:
Obrigado eu, não é?

anita disse...

Tacci:
Sim, tens razão quanto à importância do papel da mulher se tornar mais importante. Quando escrevi o 1º comentário ainda só estava na 1ª leitura do romance. Agora já vou na terceira... Mas está-me a interessar também muito a questão do sentir. E sabes de que livro me lembrei à 2ª leitura?:d'a noite e do riso (por causa dos ritos iniciáticos)

Sérgio:
Não quis "não validar" a sua leitura, como pode ter depreendido da resposta do Tacci ao meu comentário.

Anónimo disse...

O trabalho da Fernanda Botelho não necessita, obviamente, que eu o enalteça. O que lastimo é que quem ó encomendou não faça melhor uso dele

tacci disse...

Pois é, meu caro. Mas pode ser que um dia destes uma bolseira muito doutorável, pegue nessas pequenas notas e faça um trabalho sério e, agradeceremos então à Gulbenkien ter promovido e guardado essas reflexões.
A Fundação já fez muito do trabalho que competia ao Estado. Durante os tempos do salazarismo recuperou o que restava da cultura, protegeu músicos e pintores, lembrou-nos que há mais mundo para além das margens do Mondego (esta é do Eça), e editou obras fundamentais que só eram acessíveis em línguas estrangeiras.
Ajudou editores comprando um cento de exemplares dos livros dos nossos escritores e passeando com eles nas biblitecas itinerantes. Deu emprego a autores em fim de carreira...
Que mais se lhe pode exigir?
Que compre o resto do país para não deixar que as negociatas o delapidem?
Um abraço.

Anónimo disse...

Hola, eu sin duvida tenho algumas cosas a decir........, por tanto eu acho que pode ser interesante uma segunda versao do mesmo, "O Insecto pode nao ser tan Imperfecto", meu nom.....Uriel???

Jordi_Brasil disse...

Ja pedi um ejemplar do Livro a uma grande amiga de Lisboa, este deve chegar a Barcelona via aerea, depois de leer dare a minha opiniao, como falei acho que vai a ver um segundo livro sobre o fenomeno do insecto imperfeito, ya que como resulta que es la visao particular de una vivencia de dois, pode ser interesante contar la outra visao.

Jordi_Brasil disse...

ja tenho o livro nas mias maos...agora a leer............

tacci disse...

Meu caro Jordi:
Só hoje reparei nos seus comentários, pelo que lhe peço que me desculpe. É um defeito terrível, este de não cuidar do que vai ficando para trás.
Mas, fico muito feliz por saber que «O Insecto imperfeito» tem mais um leitor. Se ainda vou a tempo: não quer partilhar connosco as suas impressões da leitura?

Anónimo disse...
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catalaobrasleiro disse...
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Jordi_Brasil disse...
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Desh disse...

Oi todos.

Concordo que Bea é tal um autor inteligente, e ela tem a habilidade com ela para narrar a história.

Você pode ver a simplicidade que ela usou na capa usando preto e laranja.

Embora eu não tenha lido o livro, eu ainda me sinto aquele livro tem algo para toda a gente a aprender!

Obrigado pelo seu precioso tempo em meio ocupado horários ..

Anónimo disse...
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Desh disse...

She is not like that,
She is such a nice person and you have mistaken I think..

Don't accuse anyone like that which is not approved when it comes to ethical means, remain a civilized person !!

We would better like you unplug from this conversations,

Thanks

____________________________________


Ela não é como que,
Ela é tão boa pessoa e se você tiver enganado acho que ..

Não acusar ninguém gostou do que não for aprovado, quando se trata de ética significa.

Gostaríamos de melhor gosto de você desligar a partir desta conversa,

Obrigado

beatriz disse...

Nabukok, Vladimir
Bukovsky, Charles
Noam Chomsky
V.S. Naipul
Marguerite Yuorcenar

so many others were considered strange dangerous psychotics..such a great gallery to be with!!! im proud of myself!!!

beatriz disse...

Jesus!!! Jesus Maria!!!!
Jesus!!!

forget me plz!!!!
Jesus!!!! vaya te con dios!!!!

Anónimo disse...
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beatriz disse...

yes, Maria de Jesus!!! be happy and forget me!!!i never remember u, or notice u...

tacci disse...

Irmãozinhos:
A Drª. Beatriz Lamas de Oliveira é uma pessoa muito estimada neste blog, pelo que qualquer comentário menos elegante a seu respeito será apagado.
Se insistirem muito, fecha-se a caixa dos comentários e pronto.
Caso vos seja forçoso ser desagradáveis e dizer mal de alguém, digam de mim: é para isso que tenho o blog aberto.
Todas as outras pessoas que sâo como minhas convidadas e portanto terão de ser respeitadas.
Entendido?

Fada sininho disse...

Obrigada Tacci!!!!
Bea

Jordi_Brasil disse...

Já se pode seguir as minhas reflexoes sobre os comentarios do livro no siguinte blog:

http://quintetodealexandriaii.blogspot.com/

tacci disse...

Obrigado, Jordi, mas penso que não o farei.