segunda-feira, julho 14, 2008

... do que cabeça de Sardina pilchardus Clupeidae.

2. Já não há exploradores e explorados?
a) O "capital", lembram-se? O que lhe terá acontecido?
Claro, capitalistas é capaz de já não os haver. O que há é "empresários", gente empreendedora que aposta na inovação (pelo menos uma vez por outra) e que procura financiamento nos bancos. Não está, regra geral, interessado em investir com capitais próprios que rendem juros confortáveis noutras aplicações.
Estes empréstimos, julga a gente, terão de ser aplicados de modo a remunerar os investimentos, remunerar o banco que financiou e, está bem de ver, o accionista desse mesmo banco. A acreditar nos jornais pelo menos, a maior parte das vezes é o próprio tomador do empréstimo (é assim que se diz?). E este, por sua vez, pode perfeitamente ser outro banco que também tem os seus accionistas. Ou os mesmos, quem sabe? Os jornais mentem tanto...
Nós, aqui no Portugal, Caramba!, não percebemos nada de economia; de finanças então, menos que nada. Mas parece-nos óbvio que, a ser assim, esta tão grande cadeia de "remunerações" a pagar pela transformação do ferro em lata, da lata em conserva de sardinha e de conserva de sardinha em almoço, só é possível se o custo desta transformação não tiver nada a ver com o preço a que a sardinha no prato vai ser paga.
Haverá alguém que nos explique como é que tudo isto é possível sem uma constante procura de «bolhas» especulativas como a do «betão» e, se calhar, como já foi a das «novas tecnologias»? E como vai ser, se Deus Nosso Senhor permitir, a da «energia»?
b) E o "proletariado"?
Se bem me lembro, dantes dizíamos que proletário era o trabalhador por conta de outrém, aquele que não pode escapar ao IRS, a menos que seja tão mísero e o seu contrato tão precário que nem sequer lhe exigem os recibos verdes.
Claro que isto não excluía, para os mais conhecedores de senhas e contra-senhas das nossas tertúlias, a existência de muitos trabalhadores assalariados (haverá diferença entre o salário e o ordenado?) que, não tendo consciência disso, julgavam pertencer à burguesia. Chamava-se-lhes um nome altamente insultuoso: pequeno-burgueses. E, mesmo não sendo beneficiários do "capital" e dos lucros chorudos que, supostamente, pelo menos, ia gerando, eram ferozes opositores de toda a mudança - excepto a que o "capital" ia apresentando como necessária, urgente e patriótica.
Tenho uma vaga noção de que «trabalho» era toda a acção humana através da qual algo apenas potencial se tornava actual. A ideia de uma casa, existente apenas no mundo ideal, passava a existir em acto pelo trabalho do arquitecto, do pedreiro, do electricista e do canalizador, do carpinteiro e do vidraceiro. Pelo trabalho, então, o que era ideal (os conceitos como o de vigas de ferro, tijolos e tudo o mais) juntava-se ao que era matéria bruta (hematites e pirites, argilas, etc.).
c) Ou seja: pelo trabalho, a Natureza humanizava-se. Ou, para estarmos mais próximos de Hegel, a verdadeira bête noire dos últimos dois séculos, divinizava-se.
Que "humano" é esse que o trabalho anda a realizar?
E que "divindade" é essa que, cada vez mais, se actualiza? É Deus? É Demónio? Ou já não há diferença entre eles?

4 comentários:

gaivota disse...

Sabe do que me lembrei; do discurso no "Grande Ditador": "We have developed speed but we have shut ourselves in: machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge has made us cynical, our cleverness hard and unkind. We think too much and feel too little: More than machinery we need humanity; more than cleverness we need kindness and gentleness. Without these qualities, life will be violent and all will be lost."

tacci disse...

Obrigado pela citação. É muito bonita, mesmo se não posso concordar com a implícita condenação do pensamento ou do conhecimento.
Um abraço.

Anónimo disse...

E o professor que tem o azar de dar aulas a uma turma de insurrectos em que nenhum o ouve? Preparou as aulas, esforçou-se para captar as atenções, tudo dabalde. À saída nem um aluno consegue dizer o que se passou na aula.
Não só pelo resultado se afere o trabalho.E cuidado: a trabalho igual salário igual e não a resultado igual salário igual.

tacci disse...

Anónimo: a questão que levanta é muito importante. Um professor sozinho, terá mais dificuldades, mas uma escola que sabe quem são os seus alunos e que trabalha para eles em vez de trabalhar para uma qualquer ideia vaga que o Ministério possa ter, é uma escola que não verá os seus professores a falar para as paredes, garanto-lhe.
Quanto ao salário de um professor, receio, não tenha medida. O mais que se pode fazer é pagar-lhe a renda da casa, a comida, a escola dos filhos, os livros de que precisa - e os que não precisa, mas lhe apetecem. Quer dizer: a cada um segundo as suas necessidades, não é?
Se um professor necessitar de conhecer uma experiência com ciganos em Nice ou com negros em Vallidolid, se tiver de sustentar seis filhos e três esposas, a sociedade só tem de lhe pagar o que ele precisa, não é?
Um abraço e apareça sempre.